Em “72 Horas”, Russell Crowe é um marido em fúria

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Publicado sexta-feira, 24 de dezembro de 2010 as 10:39, por: cdb

Russell Crowe desperta o gladiador que mora dentro do professor John Brennan, seu protagonista no drama de suspense 72 horas, em que, mais uma vez, o premiado diretor e roteirista Paul Haggis desenvolve uma estrutura dramática em espiral.

Desta vez, ao contrário de Crash – No Limite (o filme de Haggis que ganhou o Oscar em 2006), o foco está centrado numa única pessoa — o professor de literatura, honesto e pacato pai de família, obcecado por tirar da cadeia a mulher, Lara (Elizabeth Banks), com um plano mirabolante, de dar inveja a qualquer criminoso ousado e experiente.

O roteiro, também de Haggis, inspira-se no filme francês Tudo por Ela (2008).

Crowe é um ator talentoso o bastante para dar credibilidade a este marido e pai fragilizado, que não consegue mais concentrar-se no emprego, nem no cuidado do pequeno filho único, Luke (Ty Simpkins), por conta do problema da mulher — que foi condenada pelo assassinato da chefe sem esperança de apelação, tamanhas as evidências que se acumularam contra ela.

Por conta desse beco sem saída, que levará sua esposa à bem-guardada penitenciária do Estado em três dias (as tais 72 horas), John corre contra o relógio para pesquisar um plano de fuga à prova de erros. Como é novato no ramo, recorre aos serviços de um especialista (Liam Neeson), um presidiário e fugitivo contumaz que até já escreveu um livro a respeito.

Contando com a assessoria do especialista e algumas arriscadas incursões pelo submundo de Pittsburgh, onde mora, o professor arma um plano complexo para tirar sua mulher da prisão e fugir com ela e o filho. Nada simples, porque a logística exige documentos falsos, roupas, passaportes, passagens e a rapidez da escapada, permitindo fugir ao cerco que rapidamente se armará em divisas estaduais, fronteiras, rodoviárias e aeroportos.

Haggis conta com a empatia que o protagonista deve despertar, embora esteja envolvido claramente numa empreitada, em última instância, criminosa. Um problema é que, num determinado momento, põe-se em dúvida a inocência de Lara, de uma forma mal-conduzida – o que pode suspender a simpatia, tanto por ela, quanto por John, levando a pensar se ele não deveria atentar mais ao seu papel de pai.

Há inúmeros buracos no roteiro que levam à quebra de confiança que toda história de ficção precisa contar para sustentar-se, por mais que os atores visivelmente se esforcem em superar estas falhas.

Também é preciso uma dose extra de fé para acreditar que John supere tão facilmente não só sua inexperiência no mundo do crime como tome as atitudes ousadas que assume — melhor deixar de fora os detalhes aqui, para não entregar todo o filme.

Não seria nada mau que Haggis confiasse também algumas linhas de diálogo a mais ao veterano Brian Dennehy, que faz pouco mais do que caras e bocas – e ainda assim captura a atenção – no papel do pai de John. O que é muito pouco para o intérprete de Silverado e A Barriga do Arquiteto.