Economia de guerra: A volta do keynesianismo bastardo

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Publicado quarta-feira, 3 de outubro de 2001 as 21:11, por: cdb

É espantoso o número de analistas que vê os ataques terroristas aos EUA como um evento de ruptura. Abundam as comparações com a cronologia de Eric Hobsbawn, associando marcos epocais à deflagração de guerras. O impacto espetacular do ataque motiva reações emocionais também nos analistas de todos os matizes e especialidades. É a síndrome do “antes X depois”.
Do ponto de vista estritamente econômico, não há nada de rigorosamente novo sob o sol. Ao declarar-se em guerra, o presidente Bush iniciou a mobilização do manjadíssimo arsenal de políticas keynesianas conhecidas como “bastardas”. Em poucas palavras, gastos públicos para estimular a economia, amparados numa política monetária de redução dos juros e indução ao gasto (consumo e investimento).
Isso não significa que vá funcionar. A primeira dificuldade e a mais grave para os economistas consiste em diferenciar curto, médio e longo prazo. No curto prazo, tem gente apostando numa recuperação igualmente espetacular da economia norte-americana até o começo do próximo ano. Tanta queda de juros e estímulo fiscal finalmente fariam efeito. Viria uma rápida recuperação, na esteira de uma desvalorização do dólar que, gerando expectativas inflacionárias, obrigaria o Fed a já em 2002 voltar a elevar os juros.
Os analistas mais cautelosos vêm na política fiscal e monetária expansionista a semente de mais problemas à frente, no médio e longo prazo, mesmo que haja efeitos positivos no curto prazo. Queimando recursos públicos, o governo Bush apenas produzira expectativas de novas elevações de impostos no futuro. Antecipando essa elevação, empresas e consumidores racionalmente adotariam comportamentos defensivos, adiando consumo e investimento.
O risco de pressões inflacionárias também levaria a um aumento nas taxas de juros de longo prazo. A perspectiva de uma recuperação sustentável e duradoura sofreria. Um dólar mais fraco também criaria no Fed (o banco central dos EUA) o ímpeto para voltar a elevar as taxas de juros de curto prazo.
Por que se trata de keynesianismo bastardo?
Desde os anos 80 vem sendo refinada uma releitura da obra do economista inglês John M. Keynes que foca a análise e as recomendações nos campos da instabilidade financeira e da necessidade de regulação do sistema monetário internacional. O famoso “imposto Tobin” deriva da obra de James Tobin, um dos mais prestigiados economistas keynesianos do pós-guerra que teve a ousadia de desafiar as leituras mecanicistas da obra de Keynes.
Nessas leituras, tudo se resume a manipulação de juros, contas públicas e taxas de câmbio. Não se coloca em questão as chamadas “regras do jogo”, ou seja, os pressupostos institucionais, jurídicos e informacionais determinantes na trajetória das economias e dos mercados financeiros. O keynesianismo bastardo é uma abordagem que ficou conhecida como “análise de elevador”: discute o superficial, o instrumental, sem colocar em questão a liberdade dos capitais ou a regulação de fundos públicos (ou seja, a qualidade de gastos e receitas dos governos).
Ignorar essas dimensões foi um dos erros de economistas e líderes políticos no mundo que culminou na crise de 1929. A economia mundial entrou em duas grandes guerras e o estímulo estatal ficou célebre como “keynesianismo”. O próprio Keynes, no entanto, morreu frustrado pois fracassou em suas tentativas de contribuir para a construção de um sistema financeiro mundial menos subordinado ao poder norte-americano.
Foi sob a atuação complacente de keynesianos bastardos que ocorreu a liberalização dos meracdos internacionais de capitais, a multiplicação de praças “off-shore” (imunes à regulação) e a falência do sistema multilateral de comércio, investimento e financiamento (FMI, Banco Mundial, OMC, etc.).
A mera adaptação do status quo aos altos e baixos do ciclo econômico não só é insuficiente para superar de modo sustentável as crises como acaba contribuindo para agravá-las. Funciona no curto prazo, mas não cria horizontes além da economia de mercado