É o desocupado correndo atrás do vagabundo

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Publicado segunda-feira, 15 de outubro de 2001 as 18:45, por: cdb

Só pode mesmo ser falta do que fazer. Tanto o brincalhão de mau gosto, quanto as autoridades brasileiras – a começar por José Serra, ministro da Saúde – embarcaram na onda perigosa do terrorismo que invade os EUA desde 11 de setembro. O Brasil não é – e nem tem porque ser – alvo de nenhum dos lados, muito menos está na região envolvida no enfrentamento armado entre os Estados Unidos, a Inglaterra e outros países menos cotados, mas que gravitam em torno dos dólares norte-americanos, e as forças invisíveis da Al Qaeda.

Simplesmente estamos fora da guerra. Para não dizerem por aí que o Brasil está fora do mundão globalizado, estamos incluídos na outra lista. A dos excluídos, dos sem-terra, sem-investidores (nacionais e estrangeiros), sem-emprego, sem-teto, sem-governo. O Brasil, cuja capital é Buenos Aires para os gringos que estão se engalfinhando lá fora, é mestre em guerra bacteriológica, não precisa ficar preocupado com os antrazes da vida. Nas valas negras que vicejam por aí afora, antraz é pinto perto do que a meninada é exposta todos os dias.

É mesmo muita falta do que fazer de quem brinca de maneira assim. Essa de deixar pó branco – que não é cocaína dispensada por medo de um flagrante – dentro de avião, e de meia-dúzia de americanófilos paranóicos, doidos para achar que o Brasil precisa pegar, no mínimo, um resfriado na guerra entre o terrorismo de fundamentalistas e o de direita. Ambos deveriam roçar um eito para ver o que é bom.

No caso dos dois abobados que jogaram uma caixa recheada de jornal velho, na Embaixada dos Estados Unidos, da parte de Osama bin Laden, deveria haver alí uma lição histórica para estas autoridades secas por aparecer para as câmeras com aquele ar de “estamos muito preocupados com os destinos da humanidade”. Ao invés de deitar mãos à obra na lida dos problemas mais urgentes, não. Ficam inventando moda para dar entrevista e aparecer no jornal das oito.

O problema do Brasil, por quanto está escancarado para quem quiser ver, está longe do sofisticado antraz ou dos milhões de dólares lançados em bombas no meio do nada, matando quem não tem nada a ver com a história, ainda por cima. Civís, coitados, mortos de fome, precisando de um prato de comida, ganham toneladas de explosivos e uma quirera depois, só para calar a boca sabe-se lá de quem.

O drama vivido por esta nação é o da falta de perspectiva, de uma vida menos ordinária do que esta a que uma década de FHC arrastou milhões e milhões de brasileiros. No atoleiro da inanição econômica, gerações inteiras deixam de realizar o melhor que poderiam fazer por este país. O tempo corroeu dez anos das vidas de toda uma nação, em um regime de endividamento a que foi submetida, sem que hoje, dez anos depois do real e da trupe que o inventou, se colhesse nada além de corrupção, atrelagem aos interesses estrangeiros e a completa estagnação da economia nacional. O país seguiu no vácuo da globalização, esta que apresenta como resultado para países subdesenvolvidos como este em que ora se habita, apenas a leva de malandros metidos a bioterroristas e autoridades desocupadas.

Esta guerra é uma estupidez tão grande, de ambas as partes, que se torna redundância a comparar à falta do que fazer destes terroristas mequetrefes do Brasil, e as autoridades que os perseguem. É caso do desocupado correndo atrás do vagabundo. Só serve mesmo de enredo para filme bufo e encheção de lingüiça nos canais de desinformação que atormentam o juízo do povo.

* Gilberto de Souza é jornalista