Durban contra o fim da Humanidade

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Publicado domingo, 2 de setembro de 2001 as 16:55, por: cdb

A conferência das Nações Unidas contra o Racismo, em Durban (África do Sul), toca em uma questão crucial do mundo contemporâneo. A “globalização” neoliberal da economia, que, teoricamente, deveria criar um “mundo sem fronteiras”, multiplicando as oportunidades com o estímulo às trocas de capitais, bens e serviços, gerou o efeito contrário: multiplicam-se os conflitos de natureza étnica, nacional e racial, à mesma proporção em que aprofunda-se o abismo entre pobres e ricos.
Em meio ao debate sobre as alternativas e estratégias para atacar o problema, recoloca-se a questão do racismo no Brasil. Aqui, as denúncias que explicitam a realidade da segregação racial abre lentamente o seu caminho, para impor-se às consciências daqueles que ainda tentam acalentar — não importa se por ingenuidade, má-fé ou ignorância — o mito da suposta “cordialidade” do homem brasileiro.
Não há mito que resista aos fatos. O Brasil branco é 2,5 vezes mais rico que o Brasil negro, mostra um estudo divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) durante a Conferência Nacional contra o Racismo e a Intolerância, realizada no final de julho; 32% da população brasileira vive em condições de pobreza e 14% em situação de indigência. Os negros são 64% dos indigentes. Em 1999, a taxa de desemprego foi de 8,9% entre brancos e 10,6% entre negros. Na educação, um branco de 25 anos tem, em média 2,2 anos a mais de estudo que um negro da mesma idade. E há os dados não quantificáveis da humilhação cotidiana de um discurso impregnado de preconceitos sedimentados ao longo de cinco séculos de escravismo.
A “ação afirmativa” (genericamente, um sistema de garantias mínimas de acesso dos negros à educação, ao mercado e aos serviços públicos básicos) poderia ser uma saída no Brasil? Sim, responde o presidente do Ipea, Roberto Martins: “precisamos de políticas específicas para os negros. Só políticas universais não estão resolvendo”. Ivanir dos Santos, coordenador do Ceap (Centro de Articulação de Populações Marginalizadas), vai pelo mesmo caminho: “a política universal não resolve”.
Aqueles que são contrários à “ação afirmativa” alegam que ela cria um “racismo às avessas”: assegurar privilégios a qualquer agrupamento humano (nacionalidade, etnia, raça ou cor) é também uma forma de separar, segregar esse grupo do restante da sociedade. É um argumento forte, para uma situação que, na verdade, não oferece saída. O racismo é o resultado de uma história muitas vezes secular — tanto quanto a corrupção generalizada, a impunidade dos poderosos e a brutalidade entre as pessoas no trato cotidiano. Só a história pode resolver aquilo que ela mesma criou: nenhum “decreto” fará milagres.
Ainda assim, a “ação afirmativa” tem seus méritos. No mínimo, obriga a sociedade a debater, a levar em consideração um problema que muitos prefeririam não enfrentar — como aconteceu nos Estados Unidos a partir do anos 60, quando essa política foi implantada, como resultado de grandes lutas sociais.
Durban terá que enfrentar essa discussão, e muitas outras tão ou mais espinhosas: por exemplo, o estatuto do sionismo como uma das expressões do racismo. Ao contestar os “achados” de ideologias totalitárias apoiados em uma antropologia tão ridícula quanto vulgar, Hannah Arendt afirmou que “raça” é o fim, não o início, da humanidade. Nesse sentido, o fato de Durban estar se realizando é um sintoma da podridão que envolve o mundo contemporâneo.

José Arbex Jr. é jornalista