Dom João volta a expor após 14 anos

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sábado, 12 de novembro de 2005 as 12:45, por: cdb

Em janeiro deste ano, D. João de Orleans e Bragança fez as malas e rumou com a família para o Cairo. Ele desejava que a mulher e os filhos conhecessem a terra natal de sua mãe, a princesa egípcia Da. Fátima Sherifa Chirine, que nos anos 40 abdicou da vida no país para se casar com um então jovem príncipe brasileiro. A viagem, imaginada apenas como um acerto de contas com o passado familiar, acabou porém se revelando artisticamente produtiva. Na volta, Dom João trouxe na bagagem centenas de fotos com um peculiar registro da vastidão do deserto africano. Delas foram retiradas as imagens em preto e branco que compõem a mostra ‘Siwa’, em cartaz na Pequena Galeria 18, no Rio de Janeiro, a partir do próximo dia 30 de novembro. É a sua primeira exposição em 14 anos.

As lentes de Dom João não se voltaram para as paisagens tradicionais do Egito, mas para o Oásis de Siwa, a 800 km da capital do país, quase na fronteira com a Líbia. É lá que se situa o Oráculo de Amon, ao qual Alexandre o Grande recorreu há 2.300 anos, antes de partir para a conquista da Ásia. Fascinado com a paisagem local, Dom João procurou captar o jogo de escalas que opunha a imensidão do deserto às raras e diminutas presenças humanas.

Para Mario Cohen, curador da exposição e proprietário da Pequena Galeria 18 – única do país voltada exclusivamente para fotografia -, Dom João conseguiu com este novo trabalho realizar aquilo que Cartier-Bresson costumava classificar de ‘captura do instante mágico’. “O olhar do João é movido mais pela intuição do que pela razão. A beleza deste seu trabalho está na captura do mistério que faz parte de nosso imaginário sobre o Oriente Médio. Ele explora com maestria a variedade de cinzas e utiliza o homem como referência para a imensidão do deserto – cujas areias, em algumas fotos, enganam o olhar do observador ao lembrar o mar. Esta exposição sintetiza um momento importante da vida dele como artista”, resume Cohen.

Dom João sempre se utilizou da cor para fotografar. Desde a sua primeira mostra, em 1987, o cromatismo esteve presente como um dos elementos dominantes na composição formal das imagens. “Eu retratava muito a natureza e a cor era quase um suporte. O outro era o grafismo. Aos poucos, no entanto, fui me orientando para uma linha minimalista, fotografando grandes espaços abertos, sempre com a presença humana em escala mínima. A atual exposição é um registro desse momento”, explica Dom João, revelando que só agora, aos 51 anos de idade e 33 como fotógrafo, se sentiu maduro para investir a fundo no universo do P&b.

A revelação e ampliação das imagens de ‘Siwa’ (em tamanho 31cm x 47cm) ficaram a cargo de outro profissional das lentes: César Barreto, vencedor do Prêmio Marc Ferrez de Fotografia (1996), que em 2003 realizou na mesma galeria uma exposição sobre o Rio de Janeiro. Barreto utilizou processo museológico para fixação das imagens, com papel de fibra e tratamento de viragem em selênio. Cada foto terá uma tiragem de apenas 15 cópias, mais as duas provas de autor.

Dom João possui sete livros de fotografia publicados. O último deles, Jóia dos Reis, sobre a Ilha Grande, foi lançado este mês pela editora Caringi, com textos de Carlos Heitor Cony.

O caminho de volta

A escolha do Egito como destino de Dom João não foi fruto do acaso, mas da vontade de restabelecer uma ponte com o passado de sua mãe. Ao realizar a viagem, entretanto, ele possibilitou a consumação (ainda que de forma involuntária) de uma coincidência histórica: seu tataravô, Dom Pedro II, também registrou o Egito em fotos no distante ano de 1871. Apaixonado por novas ‘tecnologias’, o imperador introduziu a fotografia no Brasil e foi o primeiro governante brasileiro a visitar o país africano.

D. Pedro II foi ainda o responsável pela primeira coleção de fotografia no Brasil, doada para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro com aproximadamente 20 mil imagens. Parte desse acervo – 126 fo