Dom Cláudio é indicado para comando mundial do clero

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Publicado terça-feira, 31 de outubro de 2006 as 10:59, por: cdb

Arcebispo de São Paulo, o cardeal dom Cláudio Hummes foi indicado, nesta terça-feira, para o comando de todo o clero católico do mundo. O posto significa um misto de defensor da justiça social e guardião dos dogmas do Vaticano. Hummes, de 72 anos, amigo do presidente Lula e cotado no ano passado para ser papa, vai agora para a Cúria Romana, numa indicação que ilustra a importância do Brasil, maior país católico do mundo, para o Vaticano. A nomeação pode sinalizar, também, uma maior dedicação da Igreja para com os pobres, especialmente nos países em desenvolvimento.

No cargo de prefeito da Congregação para o Clero, Hummes chefiará cerca de 400 mil padres mundo afora. Também terá de enfrentar questões complicadas, como os casos de pedofilia e a laicização (processo pelo qual os padres abandonam o sacerdócio).

– Vejo a perspectiva simbólica de Hummes influenciar as raízes da Igreja. Isso é um reconhecimento para o Brasil, onde vive um em cada dez católicos (do mundo) e onde a Igreja é muito ligada à classe pobre – disse Fernando Altemeyer, professor de Teologia e ouvidor da PUC-SP.

É também um reconhecimento por parte do papa Bento XVI do fato de que Hummes foi progressivamente se distanciando dos movimentos de esquerda, embora sem abandonar as questões sociais, e se voltando para os dogmas católicos tradicionais. Nas décadas de 1970 e 1980, Hummes ajudou os sindicatos de esquerda na luta contra a ditadura e, quando era bispo de Santo André, em São Paulo, chegou a abrigar reuniões de grevistas em sua paróquia.

Na época, a ação foi saudada pelo então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, a quem dom Cláudio veio defender décadas depois, já na Presidência, quando foi descrito pelo cardeal do Rio de Janeiro, dom Eusébio Scheid, como “caótico” e não “católico”. De acordo com dom Cláudio, o presidente, seu amigo pessoal, já comungou com ele diversas vezes e “é católico a seu modo”.

Mesmo tornando-se mais moderado com o passar do tempo, ele continua defendendo o MST, os sem-teto e os movimentos de moradores de favelas.

– Ele é um dos bispos que mais apóiam a causa dos pobres. Espero que possa ser papa. Ele não mudou muito. Se a ditadura voltasse, ele voltaria à luta política para apoiar as greves dos sindicatos – disse frei Betto, tradicional militante de esquerda da Igreja.

Altemeyer, que já foi assessor de Hummes, disse que o cardeal é ” completamente afinado com todos os dogmas do Vaticano”.

– Conservador e fiel à linha do Vaticano para questões de dentro da Igreja, como o clero, o sacramento e a educação católica, (mas) extremamente liberal a respeito de justiça social. Quanto à Teologia da Libertação, ele não está mais no barco, mas não joga água dentro do barco para que afunde, como têm feito outros bispos – disse.

A Teologia da Libertação, que aproxima os ensinamentos cristãos do marxismo, foi duramente combatida pelo hoje papa Bento 16 na época em que este era o chefe da doutrina do Vaticano, durante o pontificado de João Paulo II.

Hummes também é um conservador em questões morais. Opõe-se ao uso de preservativos e à sua distribuição pelo governo, condena o aborto e as pesquisas com células-tronco, mas defende o diálogo em vez do confronto.