Dólar termina em baixa após dia inteiro de nervosismo

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Publicado quinta-feira, 13 de setembro de 2001 as 22:29, por: cdb

O Banco Central agiu e o dólar terminou a quinta-feira em baixa, embora a cotação da moeda norte-americana tenha persistido acima de 2,66 reais no mercado brasileiro. O nível supera até mesmo o alcançado na terça-feira, quando ocorreram os ataques aéreos nos Estados Unidos, evento considerado estopim para a nova arrancada da divisa.

Depois de uma série de ataques lançados sobre o coração financeiro de Nova York, os mercados globais entraram em polvorosa e o dólar registrou três recordes consecutivos de alta no Brasil, em um movimento que divide analistas e vai na contramão do que ocorre com o câmbio em países da Europa e no Japão.

Nestas regiões, os bancos centrais advertem investidores há dois dias que estão dispostos a impedir o recuo acentuado do dólar frente às moedas locais.

Na cena interna, após dois leilões emergenciais de papéis cambiais com prazo de cinco meses, o dólar cedeu 0,96 por cento na comparação com a véspera, a 2,665 reais na venda –ainda assim, em um patamar superior ao registrado no fim da terça-feira fatídica, de 2,662 reais. No patamar atual, a alta no ano é de 36,59 por cento e, no mês, de 3,89 por cento.

“O dólar é a referência porque é a moeda do país mais forte do mundo e o que houve na terça-feira é que os Estados Unidos mostraram uma vulnerabilidade inimaginável. A atitude racional é sair dessa moeda depois das dúvidas que foram criadas, que é o que temos visto em países da Europa, por exemplo”, observou Emilio Garofalo, ex-diretor da área externa do Banco Central.

“No Brasil, ao contrário, estão combinados dois fatores (que levam à alta do dólar): a irracionalidade própria do nosso mercado e a conclusão precipitada de que os atos (nos EUA) irão reduzir os nossos investimentos diretos.”

O economista-chefe do Banco Schahin, Cristiano Oliveira, considera “justificável a volatilidade e a pressão” sobre o dólar. “Não está claro qual será a resposta norte-americana aos ataques”, comentou o economista, relatando que tem recomendado cautela a seus clientes.

Além dos leilões de papéis cambiais de cinco meses –com venda apenas parcial e taxa anual de 10,00 por cento–, o BC fez sua irrigação diária no mercado à vista, a 50a seguida. Para alguns operadores, as atuações feitas desde terça-feira podem ter superado o já considerado “rotineiro” valor de 50 milhões de dólares.

NA DÚVIDA, A CAUTELA

As projeções para o comportamento do dólar no mercado doméstico, mesmo no curto prazo, também não encontram voz única entre analistas.

“O dólar só cedeu por causa da intervenção do Banco Central. É difícil dizer o que pode vir (para o dólar) com o mercado em Nova York ainda fechado nesta sexta-feira, que já é um dia ruim em termos de volume”, considera o economista-chefe do BicBanco, Luiz Rabi. “E quando o volume é baixo, as oscilações são muito maiores.”

Garofalo considera que a atitude ideal para os investidores seria de cautela. “Não estou dizendo que é para sair vendendo moeda. Quem está posicionado que fique, mas para quem está fora não é o momento de entrar”, avalia Garofalo.

“Acho que as cotações tendem a voltar nos próximos dias, mas se antes já era difícil este tipo de previsão, agora é quase impossível”, acrescentou.

MERCADO ATENTO AOS INVESTIMENTOS

Oliveira acredita que, entre os desdobramentos dos ataques em Nova York e Washington, está o agravamento do “já decrescente ritmo de investimentos diretos ao país”. Ele afirma que isto merece atenção quando o tema da conversa é o câmbio doméstico.

“Possivelmente será feita uma diminuição na nossa projeção para 2002, que era de 16,5 bilhões de dólares”, disse o economista, acrescentando que uma parcela expressivo dos investimentos diretos têm como origem os EUA.

É exatamente neste ponto que Garofalo vê uma possibilidade menos pessimista para países como o Brasil. “O europeu e o japonês estão ‘desinvestindo’ em dólar e pode ser que a decisão seja de aplicar estes recursos em países como o Brasil”,