Dirceu, entre metáforas e metonímias

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sexta-feira, 2 de dezembro de 2005 as 08:44, por: cdb

Uma das coisas mais difíceis nos estudos da linguagem é fixar a diferença entre metáfora e metonímia. Ambas constituem processos básicos na construção de imagens e de símbolos, isto é, imagens investidas de valor (positivo ou negativo). Uma metáfora se constitui por um processo de “substituição”, ou espelhamento, de palavras (no caso da linguagem verbal), baseado numa analogia por semelhança. Já uma metonímia se constitui por um processo baseado numa contigüidade; esta contigüidade pode ser de causa e efeito, de continente e conteúdo, de lugar e produto, etc. Vejamos alguns exemplos.

Certos jornalistas quiseram transformar o coió que agrediu José Dirceu a bengaladas numa metáfora da opinião pública brasileira. Na verdade, ele se fez uma metonímia do animus cassandi das oposições e áreas próximas no Congresso Nacional, tomadas por faniquitos ao se verem contrariadas por considerações feitas no Supremo Tribunal Federal sobre o festival de ofensas a garantias constitucionais que vêm cometendo no great show em que as CPIs e o processo de cassação de José Dirceu se transformaram. Quer dizer, o agressor foi produto desse clima, açulado pela imprensa conservadora, e não espelho de uma suposta opinião pública, ainda que haja muita gente que goste de decidir tais questões a bengaladas, senão a choques elétricos, como no saudoso tempo da ditadura militar.

Mas se deve considerar que o gesto covarde do agressor foi uma metáfora do que estava por vir: sem provas contra ele, José Dirceu foi covardemente linchado no dia seguinte por deputados com mais interesse nas votações de 2006 do que na apuração dos ilícitos cometidos, já que nos procedimentos das CPIs muito se acusa, pouco se investiga, quase nada se comprova. Como prova de covardia, muitos deputados votaram e foram embora antes da apuração. Deram sua facada no simbolicamente morto, tiraram sua casquinha, e deram as costas ao insepulto.

Também houve claro processo metonímico, inspirador de uma sinédoque (substituição do todo pela parte), quando o mesmo jornalismo conservador quis apresentar a contrariedade raivosa das oposições diante dos ministros do Supremo que criticaram os procedimentos inaceitáveis da Comissão de Ética(!) contra Dirceu, como uma “crise entre poderes”. Substituíram “oposições” por “Congresso Nacional”, lastreando a conclusão implícita de que, ao discutir garantias individuas de um acusado, os ministros do Supremo estavam se metendo onde não deviam, isto é, estavam atrapalhando o show.

Mais exemplos

Passemos a outros exemplos. Faz tempo que o economês conservador constrói o conceito de “PIB” como uma metáfora da nação. O PIB cresce bem, a nação vai bem; o PIB decresce, a nação vai mal etc. É claro que se deve medir o PIB, ainda que se pretenda que ele meça mais do que na verdade mede. Mas essa construção metafórica impede que se tenha um descortínio das retóricas que aprisionam a política no brete da economia, onde ela (a política) será sempre sacrificada, enquanto arte de discernir o possível, não só o provável, ou ainda a mesmice do mesmo.

Na verdade essa maquiação do PIB em metáfora da nação é uma metonímia de economistas e jornalistas conservadores que fazem uma leitura desse conceito historicamente datado (com o de PNB) destinada a tornar “natural” a visão da “saúde” de uma nação sem levar em conta a sua particular estrutura de desigualdade. No fundo o procedimento repete ad nauseam o argumento de que a única maneira de que para repartir melhor o bolo é necessário primeiro fazê-lo crescer, só que neste tipo de pensamento o bolo deve crescer sem parar, e portanto, nunca ser melhor dividido.

Como sugeriu Hazel Anderson em entrevista à TV Carta Maior tempos atrás, saber o que medir é fundamental para discernir políticas econômicas, e ao cairmos na ditadura do PIB estamos deixando de prestar atenção ao essencial, isto é, se a vida das pessoas melhorou ou pi