Dificuldades do fórum refletem realidade da economia solidária

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Publicado segunda-feira, 31 de janeiro de 2005 as 13:34, por: cdb

As dificuldades vividas por pequenos produtores e cooperativas agrícolas que trouxeram a Porto Alegre alimentos que encalharam reproduzem as dificuldades do dia-a-dia do chamado comércio solidário, segundo analisam os coordenadores deste setor da economia nos debates do próprio Fórum Social Mundial. Nesta “reprodução”, cabem até as “brigas políticas” entre grupos e Ongs distintas que, geralmente, ocorrem nos bastidores.

Não resta dúvida de que o 5º Fórum inovou anexando às tendas de debates os chamados Armazéns e Feiras de Solidariedade, em que se comercializou de tudo um pouco – de suco de grama a roupas, de alimentos orgânicos a produtos esotéricos -, através da participação de aproximadamente 300 produtores vindos de todos os cantos do país. Mas, a “novidade” também teve seus exemplos de dificuldades, assim como os chamados casos de “espertezas”.

Um dos problemas vividos pelo Comércio Solidário em Porto Alegre foi a dificuldade na distribuição aliada à concorrência paralela. Os representantes da Central de Associações dos Produtores do Litoral Norte da Bahia, entidade que congrega cerca de 800 famílias baianas plantadoras de coqueiros, trouxeram 11 mil cocos e, até este domingo, tinham vendido menos da metade deles – 5 mil – justamente por não disporem de meios mais ágeis para a distribuição das frutas, já que dependem dos poucos carros elétricos disponibilizado pelos coordenadores do evento para atender a muitos.

Paralelamente, porém, tradicionais abastecedores de coco na cidade espalharam pela cidade as frutas que trouxeram em duas carretas, na véspera do início do encontro. Com isto, o Fórum deve terminar e deixar uma grande quantidade de coco baiano em Porto Alegre à espera de consumidores. Como manda a chamada lei do mercado, os produtores trataram de reduzir o preço no varejo – de R$ 2,00 a unidade caiu para R$ 1,50 – na expectativa de chegarem aos R$ 10 mil necessários para não terem prejuízo.

Também sofreram problemas de transporte e distribuição das suas frutas os produtores de banana do Espírito Santo, como Otniel Barcelos de Aquino, responsável pela venda de 175 caixas com 20 a 22 quilos de bananas vindas dos assentamentos do Incra nos municípios capixabas de Muqui, Mimoso do Sul e São José dos Calçados. O caminhão pago pelos organizadores do Fórum só chegou em Porto Alegre na sexta-feira, o que dificultou ainda mais comercialização das bananas. Para reduzir o prejuízo e não deixar que as frutas apodreçam, passaram a vender a dúzia por R$ 1,00 aos jovens do acampamento da Juventude, ou a dez centavos cada banana.

Quem, neste domingo à tarde, assistiu as discussões sobre Economia Solidária no próprio Fórum, ficou sabendo que um dos principais problemas que se tem no país neste setor é o desconhecimento do que o consumidor quer. Os pequenos produtores não sabem ao certo o que devem oferecer. Um exemplo claro disto foi vivido pelo representante da Associação de Produtores Rurais do Bairro de Santa Maria, em Aracaju (Se), José Augusto Nascimento que chegou em Porto Alegre com 3,5 mil cocos secos, mil mangas, 100 jacas, 150 bijus de tapioca e 50 melancias.

Enquanto o coco seco e a manga sobravam em sua barraca, o biju foi vendido todo no primeiro dia, a jaca também não demorou a acabar e a melancia, fatiada, fez tanto sucesso entre os jovens do acampamento ao preço de R$ 1,00, que ele foi obrigado a comprar mais no Ceasa da cidade. O detalhe curioso é que, enquanto a que ele trouxe custava R$ 8,00, a comprada na cidade saiu por apenas R$ 5,00. Como a fruta era partida em oito fatias, ele teve um lucro de 60%.

Problema idêntico passava Jorge Solesmar Costa, da Cooperativa de Agricultores Familiares de São José do Norte (RS). Ele trouxe para a capital 71 sacos com 20 quilos de cebolas. Pagou pelo transporte R$ 140,00. Diariamente gasta cerca de R$ 15,00 com comida e bebida, já que não paga hospedagem, pois dorme junto ao produto estocado na Centr