Desnutrição infantil no Acre é como na África Subsaariana

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Publicado terça-feira, 30 de novembro de 2010 as 13:47, por: cdb

A desnutrição infantil no município de Jordão, no Acre, atinge níveis próximos aos estimados para a África Subsaariana. Uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP buscou os fatores associados, na cidade, à desnutrição e constatou que a ascendência indígena de boa parte da população, a estatura baixa das mães, não estar com as vacinas em dia e o histórico de introdução de leite de vaca antes de 30 dias de vida são os principais fatores que se relacionam ao desenvolvimento da doença.

A pesquisa analisou 478 crianças de até 5 anos de idade da zona urbana e da zona rural. Após fazer as medições de peso e altura, foi constatado que 35,8% delas apresentaram déficit de crescimento, principal indicador da desnutrição. O valor encontrado é alarmante, principalmente quando comparado com a média do Brasil, de 7%.

– Até em comparação com a média da região norte, de 14,8%, o valor é muito alto. É como se tivéssemos uma realidade africana em plena Floresta Amazônica, mostrando que a riqueza natural lá encontrada não consegue superar as condições sociais que influenciam na determinação desse problema –, pondera o enfermeiro Thiago Santos de Araújo, autor do estudo.

Crianças com ascendência indígena da área rural foram as que apresentaram maior índice de desnutrição, de quase 60%, e o risco de déficit de crescimento se mostrou duas vezes maior.

– Apesar de não podermos descartar a influência de fatores genéticos, as diferenças observadas no crescimento de crianças com ascendência indígena podem ser melhor explicadas pela pior inserção social desse grupo, que as expõe a uma menor escolaridade, renda e acesso a saneamento básico –, explica Araújo.

A altura das mães também é um fator associado à desnutrição. Os filhos de mulheres com menos de 146,4 cm apresentaram risco três vezes maior de terem o crescimento comprometido.

Segundo Araújo, o crescimento da criança revela características marcantes da falta de nutrientes já sofrida e possibilita diagnosticar a desnutrição crônica, na qual o organismo, pela baixa quantidade de energia ou pelo desvio de energia para o combate a sucessivos episódios de doenças, não consegue multiplicar as células e tecidos na quantidade adequada.

– Analisamos a altura porque o peso é mais instável, já que uma alimentação inadequada por um curto período de tempo ou um episódio mórbido que modifique momentaneamente o apetite da criança já altera seu valor, revelando apenas um quadro agudo de desnutrição –, explica.

Reverter o quadro da doença e fazer com que a criança volte ao padrão de crescimento normal para a idade é possível até os dois anos de vida. De dois a cinco anos, a criança volta a crescer num ritmo desejável desde que se restabeleçam as condições ideais para o crescimento, mas já não atinge a estatura padrão que deveria caso não tivesse sofrido a carência de nutrientes.

Além disso, a desnutrição acarreta problemas futuros, como o aumento no risco de desenvolvimento de obesidade e outras doenças crônicas, em virtude da relação existente entre o estado nutricional durante os primeiros anos de vida e o desenvolvimento desses distúrbios na idade adulta.

Jordão possui 6.539 mil habitantes (IBGE 2008) dos quais 33% possuem ascendência indígena. Em 2000, seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) era de 0,475, o penúltimo do Brasil. O sistema de saúde é composto por uma Unidade Mista, que oferece atenção básica e internações para doenças que não sejam graves, e um pólo de saúde indígena. O atendimento à população rural é itinerante.

A escolha do município para realização do estudo se deu, além dessas características, em virtude da publicação das estimativas de prevalência e risco de desnutrição realizadas pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS) da USP, sob a coordenação da professora Maria Helena de Aquino Benício.

Em 2000, Jordão foi apontado como o município com maior risco de desnutrição do país (44,6%) e as altas estimativas se confirmaram, já que a cidade ainda apresenta alta prevalência de desnutrição.

A dieta da população é predominantemente à base de arroz, farinha, peixe, mandioca, milho e amendoim.

– Há pouca variabilidade e eles vivem do que produzem –, observa Araújo.

Segundo ele, mais investimentos e ações básicas de saúde, como campanhas de vacinação e de incentivo ao aleitamento materno, são medidas eficazes na prevenção e no controle da desnutrição infantil na cidade, cuja situação é encontrada também em outros municípios.

– A desnutrição infantil persiste como um problema de saúde pública no Brasil, especialmente nos municípios do interior da Amazônia, e o estudo chama a atenção para o fato de que medidas podem reverter a situação –, conclui.