Desmundo estréia em São Paulo, Rio e Brasília

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Publicado sexta-feira, 30 de maio de 2003 as 15:05, por: cdb

Tem sido um tema recorrente do cinema brasileiro recente. Em filmes como Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e O Invasor, de Beto Brant, na obra-prima da atual safra da produção nacional – o extraordinário Narradores de Javé, de Eliane Caffé, cuja consagração no Recife foi desautorizada pelo bando de incompetentes que formou o júri no Cine Ceará -, a questão da língua faz-se presente com maior ou menor felicidade, não importa.

Para retratar o Brasil dos excluídos, dos marginalizados, para pôr na tela a relação do centro com a periferia, os diretores se preocupam em criar diálogos que soem verdadeiros para o espectador. E, nessa busca de uma linguagem verbal, talvez esteja embutida, metaforicamente, outra busca – a de uma linguagem para o próprio cinema brasileiro, para que ele seja, realmente, a expressão cultural do País.

É um tema que esteve em debate esta semana num seminário realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio. Está em Desmundo, o filme de Alain Fresnot que estréia nesta sexta-feira em São Paulo (capital e interior), no Rio e em Brasília.

Não chega a ser um arrasa-quarteirão, como Carandiru, que estreou em mais de 200 salas e já bateu o recorde de público do cinema brasileiro desde a retomada da produção no começo dos anos 1990, com 3,9 milhões de espectadores. Desmundo sai com 41 cópias, o que pode ser considerado um número bom.

O próprio filme é forte, é belo e rigoroso, qualidades raras em qualquer cinematografia, nos tempos atuais. Talvez não seja um programa fácil, para quem só quer entrar no cinema como um pretexto para comer pipoca e tomar refrigerante enquanto olha alguma coisa que se mexe na tela.

Desmundo baseia-se no livro de Ana Miranda sobre o lado feminino da colonização brasileira. E, se o livro é de Ana Miranda – e você conhece a escritora cearense que foi atriz de Nelson Pereira dos Santos em Como Era Gostoso o Meu Francês -, sabe que a linguagem tem mesmo de ser importante.

Mais de um crítico já disse que a palavra é a protagonista da literatura de Ana Miranda. Com suas personagens históricas, em livros como O Boca do Inferno, O Retrato do Rei e Desmundo, ela se preocupa sempre em aprimorar ou discutir a palavra.

Essa preocupação está embutida em Desmundo, que vê o mundo pelos olhos de Oribela, a órfã portuguesa trazida ao Brasil Colônia, no século 16, para casar-se com um fidalgo português que possui um engenho no interior, desta maneira, contribuindo para o aprimoramento da raça. A história interessou ao diretor Fresnot porque ele, que chegou ao País ainda criança, descendente de judeus europeus, identificou-se com essa heroína numa terra estranha, com seus costumes bárbaros. E também porque o fascinou a pesquisa de Ana Miranda no livro, que é trazer para o presente o linguajar do século 16.

Se você fixar o ouvido e prestar atenção, vai se acostumar a esse português arcaico, mas, para facilitar, o filme passa com legendas, o que não deixa de produzir estranhamento. Um filme brasileiro com legendas! É assim que bate na tela a história de Oribela. É trazida de Portugal para casar-se com um certo Francisco de Albuquerque, homem rude cujo comportamento autoritário e possessivo, dispondo dela como se fosse uma coisa, assusta a garota. Uma nota da produção de Desmundo diz que odeiam-se com amor. Ela é frágil e forte e essa ambivalência seduz o aventureiro Ximeno Dias. Oribela corresponde e forma-se o triângulo de trágicas conseqüências.

Talvez seja uma trama muito tradicional – história de amor a três, de possessão e adultério -, mas não parece, do jeito como é desenvolvida pelo diretor, que também é roteirista. É o melhor filme de Fresnot, que já dirigiu Trem Fantasma, Lua Cheia e Ed Mort.

Há aqui um rigor cênico e dramático que não havia nos outros filmes, embora o cineasta jure que ele também esteja na história de detetive adaptada de Luis Fe