Desconstruindo Bush

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Publicado quinta-feira, 20 de março de 2003 as 17:42, por: cdb

Na noite de quarta-feira, dia 19, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, seguindo os passos do pai, anunciou o início do ataque ao Iraque, dizendo que o país vai à guerra mais uma vez em nome de Deus e da causa da liberdade. O discurso de Bush mostra que antes de se apropriar do petróleo iraquiano, os EUA tentam usurpar alguns dos conceitos mais generosos já produzidos pela humanidade. As próprias palavras do presidente norte-americano denunciam a hipocrisia e o cinismo que animam a política externa da maior potência do planeta. Lendo o discurso de Bush, palavra por palavra, podemos identificar o festival de mistificação histórica e estupro semântico que estrutura a ideologia do Império. Veja a seguir a íntegra da fala e o que ela esconde:

BUSH: “Meus companheiros cidadãos, neste momento as forças norte-americanas e de coalizão estão no estágio inicial da operação militar para desarmar o Iraque, libertar sua população e defender o mundo de um grave perigo. Sob minhas ordens, as forças de coalizão começaram a atacar alvos específicos de importância militar para minar a capacidade bélica de Saddam Hussein. Este é o estágio inicial daquela que será uma campanha ampla e planejada”.

Segundo Bush, os objetivos da guerra são libertar o povo iraquiano de Saddam Hussein, destruir suas armas de destruição em massa, e implantar uma democracia no país. O que não é dito? Enquanto serviu aos interesses norte-americanos, no período da guerra contra o Irã, Saddam Hussein foi um importante aliado. O ditador, então, era considerado um amigo dos EUA e recebeu milhões de dólares em armas de destruição de massa, inclusive armas químicas e biológicas, para derrotar o regime dos aiatolás. O atual secretário de Defesa de Bush, Donald Rumsfeld, visitou o ditador várias vezes em “missão de amizade”. Os EUA são o país que mais fabrica e vende armas no mundo. É o maior proprietário de armas de destruição em massa do planeta. É também o único país que já lançou bombas atômicas sobre populações civis. Quem ameaça a paz mundial? O Iraque?

BUSH: “Mais de 35 países estão dando uma colaboração fundamental, do uso de suas bases navais e aéreas à ajuda em questões de inteligência e logística, e à convocação de unidades de combate. Cada país nessa coalizão escolheu assumir sua tarefa e dividir a honra de servir em nossa defesa comum. A todos os homens e mulheres das forças armadas dos Estados Unidos que estão agora no Oriente Médio, a paz de um mundo tumultuado e a esperança de um povo oprimido agora depende de vocês. A confiança está bem colocada”.

Bush anuncia que os EUA vão à guerra mais uma vez para defender a paz mundial e as esperanças dos oprimidos. Quem delegou aos EUA o papel de defensor da paz mundial? Certamente não foi a Organização das Nações Unidas que lutou até o último minuto para tentar evitar a guerra. Quanto à libertação dos povos oprimidos, nunca é demais lembrar o histórico de apoio dos EUA a regimes ditatoriais em todas as regiões do mundo. Os latino-americanos conhecem bem essa história. Os EUA ocuparam o Haiti durante 19 anos, estabelecendo um poder militar que desembocou na ditadura sangrenta de Duvalier. Ocuparam a República Dominicana durante nove anos e fundaram a ditadura de Trujillo. Ocuparam a Nicarágua por 21 anos e sustentaram até o fim a ditadura de Somoza. Ajudaram a derrubar o governo Allende no Chile, colocando o “democrata” Pinochet no seu lugar. Sustentaram ditaduras na Argentina, no Brasil, no Uruguai, etc., etc., a lista é longa e bem conhecida. Mas voltemos às palavras de Bush:

BUSH: “Os inimigos que vocês confrontarem conhecerão sua habilidade e sua coragem. As pessoas que vocês libertarem testemunharão o espírito honroso e íntegro dos militares norte-americanos. Neste conflito, a América encara um inimigo que não tem respeito por convenções de guerra ou regras de moralidade. Saddam Hussein instalou tropas e equipamentos iraquianos em áreas civis, tentando usar homens, mulheres e crianças inocent