Depois do Iraque, um mundo imprevisível

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Publicado terça-feira, 6 de dezembro de 2005 as 15:28, por: cdb

Na última semana, por duas vezes, o presidente Bush veio à público contestar os críticos da Guerra no Iraque, com o argumento de não se possuir outra alternativa. Embora reconhecendo que a guerra não foi – e não está sendo – o “passeio” previsto, Bush insistiu várias vezes que a vitória estava perto. Assim, mais uma vez mostrava-se – tal qual os presidentes americanos durante a Guerra do Vietnã – incapaz de pensar em uma grande estratégia para a paz, tanto no Iraque, quanto em todo o mundo.

O vazio de iniciativas e de personalidades notáveis capazes de liderar o mundo na direção da paz acentuam o conceito de Washington de que vivemos em um mundo de guerra e sem segurança. As lideranças mundiais – Blair, Chirac, Merkel, Putin e os chineses – mostram-se medíocres em face às exigências mundiais, permitindo que um homem sem idéias reine de Washington sobre um mundo sombrio.

O fim da Guerra Fria e suas esperanças

Superada a Guerra Fria (1947-1991), sua geopolítica e as implicações da bipolaridade (Estados Unidos versus União Soviética) para a segurança e a defesa nacional das nações, cabe problematizar as novas condições vigentes nas relações internacionais depois de 1991 (fim da União Soviética). Durante o período entre 1991 e 2001 – Administração Bush, sênior e as duas Administrações Clinton – deu-se uma grande expectativa, amplamente otimista, num reordenamento mais harmonioso das relações internacionais, com a diminuição da pressão e das exigências sobre segurança e defesa das nações.

Contudo, desde 1993 – com o primeiro ataque terrorista ao World Trade Center e os subseqüentes ataques às embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia, depois às tropas americanas na Arábia Saudita e ao USS Cole, culminando no ataque de 11/09/2001 contra Nova York e Washington – tal fase de transição encerrar-se-ia de forma trágica, inaugurando uma nova fase de pessimismo e de obsedante preocupação com segurança e defesa nacional.

Ao mesmo tempo em que avançam as novas condições de insegurança e incerteza, avança também, de forma paradoxal, a Globalização. As condições técnicas e econômicas para a generalização da circulação de idéias, capitais, bens etc. asseguram o surgimento de uma rede global de transições de bens materiais e imateriais, de trocas simbólicas e de alto valor financeiro, criando pela primeira vez – de forma absoluta – a anunciada aldeia global.

O paradoxo antes afirmado explicita-se nas características mais marcantes do framework da globalização: um mundo mais unificado, mais inseguro e mais incerto. Emergem, em especial após 2001 – Administração Bush, Junior e os mega atentados terroristas – uma forte tensão – política, teórica e econômica – entre unilateralismo versus multilateralismo, com retorno da guerra inter-estatais (como no Afeganistão, 2001 ou Iraque, 2003) ou intra-estatais (Congo/Kinshasa, Sudão) e a recorrência dos genocídios (Iugoslávia, 1999; Sudão, 2005) (2).

O Unilateralismo

O caráter multilateral das crises e a emergência do unilateralismo lançam suas bases teóricas e políticas em antigos paradigmas do campo das Relações Internacionais e promovem compreensões diferenciadas das novas condições vigentes nas relações internacionais pós-1991. Tais paradigmas serão, por sua vez, as bases para a formulação de políticas nacionais de Segurança e Defesa Nacional também diferenciadas, e muitas vezes concorrentes entre si. Mesmo no interior de países o debate entre unilateralismo e multilateralismo, muitas vezes tingido pela antiga rivalidade teórica entre idealistas kantianos e realistas hobsenianos, atingira o conjunto das instituições formuladores de políticas públicas na área de Relações Internacionais, Segurança e Defesa (RI,S&DN) (3).

Debates em torno da manutenção de forças armadas ou sua transformação em milícias cidadãs, com funções de polícia voltadas exclusivamente para as operações de Garantia da Lei e da Ord