Demolições fazem crescer oposição à reforma do Maracanã

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Publicado quarta-feira, 28 de novembro de 2012 as 12:52, por: cdb

Demolições fazem crescer oposição à reforma do Maracanã

Ícones do esporte e da educação no Rio estão na lista de demolições, assim como o Museu do Índio; ato em frente ao estádio reunirá artistas e atletas

Por: Maurício Thuswohl, da Rede Brasil Atual

Publicado em 28/11/2012, 14:40

Última atualização às 14:40

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Índios fazem protesto na frente do Maracanã (Foto: Fotoarena/Folhapress)

Rio de Janeiro – Em sua mais recente visita às obras de reforma do Maracanã, realizada na segunda-feira (26), o secretário-geral da Fifa, Jérome Valcke, teve uma recepção diferente da habitual quando chegou ao estádio. Pintados para a guerra, onze índios de diversas etnias atravessaram o caminho do francês e entoaram cânticos em protesto contra a demolição – prevista no projeto da reforma – do antigo Museu do Índio, onde hoje funciona a Aldeia Maracanã, espécie de embaixada dos povos indígenas no Rio de Janeiro.

Valcke tentou ignorar a manifestação, mas será cada vez mais difícil para a Fifa e as autoridades públicas estaduais e municipais desconsiderar a crescente oposição às demolições previstas pela reforma do Maracanã. Além do Museu do Índio, também serão demolidos dois ícones da história esportiva da cidade – o Estádio de Atletismo Célio de Barros e o Parque Aquático Júlio Delamare – para dar lugar, segundo o projeto, a “espaços para estacionamento de veículos e para a circulação de pessoas”, além de bares, restaurantes e helipontos para que dirigentes esportivos, autoridades públicas e torcedores vips possam chegar ao estádio de helicóptero.

Também está prevista a demolição da Escola Municipal Friedenreich, que funciona dentro do Complexo do Maracanã e, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), é a quarta melhor escola da cidade e a sétima melhor do estado, feito notável em se tratando de uma unidade da rede pública. Em seu lugar, segundo o projeto da reforma, serão construídas “quadras de aquecimento para os jogadores se exercitarem antes dos jogos”.

De acordo com a Secretaria Estadual da Casa Civil, a escola seria transferida para um terreno das Forças Armadas no bairro vizinho de São Cristóvão, mas a decisão unilateral desagradou a alunos, pais e professores da Friedenreich. Para piorar, o Comando Militar afirmou desconhecer qualquer acordo para a cessão do referido terreno, onde funcionava a antiga Escola de Veterinária do Exército, à Prefeitura do Rio: “Demolir a Friedenreich é acabar com um referencial na educação pública brasileira”, lamenta Carlos Sandes, presidente da Comissão de Pais da escola.

Para tentar evitar a demolição, o Ministério Público Estadual deu entrada em Ação Civil Pública determinando que Estado e Município “devem se abster de adotar qualquer medida que impeça, inviabilize, limite ou não proporcione o direito à educação na escola situada na Avenida Maracanã, 350, sob pena de multa diária de R$ 5 mil em caso de descumprimento, a ser pago por cada ente federativo”. A ação é sustentada por um inquérito aberto pelo próprio Ministério Público em 2009 e no qual autoridades públicas estaduais e municipais afirmam que o projeto de reforma do Maracanã não prevê nenhum tipo de intervenção na Escola Municipal Friedenreich.

De imediato, o MP quer garantir o funcionamento da escola, onde ela está, no ano letivo de 2013: “A confirmação da demolição ocorreu às vésperas do encerramento das matrículas para 2013. No site da Secretaria Municipal de Educação não há uma nova localização onde os pais possam matricular seus filhos. Não é apresentada qualquer destinação concreta, com prazo e endereço definidos para as novas instalações, o que inviabiliza a matrícula e coloca em risco o direito à educação dos estudantes”, afirma a promotora de Justiça Bianca Mota de Moraes.

Ato contra a privatização

O Comitê Popular da Copa, que reúne dezenas de organizações e movimentos sociais, realizará no próximo sábado (1) um ato público em frente ao estádio para protestar contra a privatização do Complexo do Maracanã e as demolições do Museu do Índio, do Célio de Barros, do Júlio Delamare e da Escola Friedenreich. O ato, que começará com uma passeata que irá da Praça Saenz Peña, no bairro da Tijuca, até o Maracanã, deverá contar com a presença de vários atletas e artistas que aderiram à causa.

O movimento conta com o precioso apoio do cantor e escritor Chico Buarque, que gravou um vídeo no qual aparece vestido com uma camisa com a estampa “O Maraca é Nosso!” e talvez marque presença no ato de sábado. Na gravação, o tricolor Chico afirma ser “freqüentador do Maracanã há mais de 60 anos” e se coloca contra o projeto de concessão do estádio: “É um espaço público que deve permanecer público e não ser privatizado. Não só o estádio de futebol, como o seu entorno: o Célio de Barros, o Júlio Delamare, a Aldeia Maracanã e a Escola Friedenreich, assim como o Maracanãzinho. Acho que a gente deve lutar para que esse espaço permaneça um espaço popular, um espaço público. O Maraca é nosso! O Maraca não está à venda!”, diz.

A presença de grandes nomes do esporte também é dada como certa, já que entidades como a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) e atletas e ex-atletas do porte de Cesar Cielo, Poliana Okimoto, Kaio Márcio, Gustavo Borges, Robson Caetano e Arnaldo de Oliveira Silva, entre outros, já se manifestaram publicamente de forma contrária à demolição do Célio de Barros e do Júlio Delamare: “A partir do dia em que a gente precisar fazer índices, em que a gente precisar de uma piscina rápida, a gente vai ficar devendo. Vai ser só lembrança mesmo”, lamenta Cielo.

Fator Eike

De acordo com especulações, o principal beneficiário da concessão do Maracanã será o empresário Eike Batista. Segundo denúncia feita pelo Comitê Popular da Copa, ao fim da concessão de 35 anos, Eike terá de pagar ao Estado menos de 20% do montante de cerca de R$ 1,5 bilhão investidos pelo poder público no Complexo do Maracanã nos últimos 15 anos.

As demolições também são contestadas: “Eike Batista quer construir estacionamentos e shopping centers! Atletas olímpicos e paraolímpicos ainda não sabem onde iriam treinar. Jovens, crianças, idosos e deficientes físicos atendidos por projetos sociais ficariam a ver navios. Os indígenas, antropólogos, historiadores e arquitetos que defendem o Museu do Índio também. E os alunos, pais e professores perderiam uma das dez melhores escolas públicas de ensino fundamental do país. Ou seja: em lugar de equipamentos de uso esportivo, social e cultural, espaços para que o multibilionário amigo do governador ganhe mais dinheiro!”.