Demissão de ministros causa crise no Sri Lanka

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Publicado terça-feira, 4 de novembro de 2003 as 11:23, por: cdb

O Exército do Sri Lanka tomou posições nesta terça-feira junto às emissoras públicas de rádio e televisão e as principais infra-estruturas do país, depois da destituição dos ministros de Defesa, Interior e Informação pela presidente Chandrika Kumaratunga. Segundo testemunhas, os oficiais que enviam as tropas garantiram que “se trata de reforçar as patrulhas para evitar incidentes indesejáveis”.

A destituição dos ministros e os movimentos militares na capital e outros locais do país ocorrem enquanto o primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe, rival político de Kumaratunga, se encontra em Washington, onde deve se reunir amanhã com o presidente dos EUA, George W.Bush, depois de ter mantido encontros com diversos altos funcionários da Secretária de Estado. Kumaratunga, escolhida presidente em eleições simples, tem poderes executivos, apesar de o Governo estar nas mãos de seu rival político, o primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe, cujo partido ganhou as eleições legislativas.

Os ministros de Defesa, Interior e Informação do Governo do Sri Lanka foram destituídos nesta terça-feira por Kumaratunga, segundo informaram fontes da Presidência, decisão que pode dificultar o processo de paz com os Tigres Tâmeis do norte da ilha. Depois de um encontro com Wickremesinghe, o vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, Richard Armitage, declarou que o plano de paz apresentado pelos rebeldes tâmeis é “global” e “significativo” e, “embora vai muito longe” nas atribuições que exigem para a administração interina do território do nordeste, de maioria de população tamil, “mostra um caminho para alcançar um acordo”.

Os fatos desta terça-feira se produzem um dia após se conhecer que outros quatro ministros mantêm conversas com os Tigres Tâmeis sobre a proposta destes de uma administração interina no norte do Sri Lanka, com o que se recupera o diálogo de paz depois de sete meses de bloqueio.Na sexta-feira passada, a guerrilha tamil apresentou à administração de Colombo sua primeira proposta política detalhada para criar uma Autoridade Interina de Autogoverno na parte norte da ilha, de maioria de população tamil.

A proposta tamil, muito distante das posturas de Colombo, recolhe o direito da Autoridade Interina para “governar o nordeste, com poderes para o reassentamento de deslocados, reabilitação, reconstrução e desenvolvimento (…), criação de impostos, arrecadação de tarifas e segurança cidadã”. Também querem criar um sistema judicial autônomo e negociar créditos exteriores, o que, na opinião do Governo do Sri Lanka, supõe pretender na “prática a independência da região”, embora, em qualquer caso, “o documento é um primeiro passo para começar a negociar”.

As negociações de paz entre os Tigres Tâmeis e o Governo de Colombo começaram há vinte meses, com um cessar-fogo supervisado por uma equipe escandinava e a mediação da Noruega nas conversas. Kumaratunga começou a criar certa tensão com o Governo e os mediadores ao pedir, em 23 de outubro passado, a retirada do general norueguês que envia as equipes de supervisão da trégua, ao qual acusou de ajudar a guerrilha tamil. Os tâmeis acusaram reiteradamente Kumaratunga de conspirar com as Forças Armadas, especialmente com a Marinha, para boicotar as negociações de paz.