Davos e Porto Alegre: “não se pode servir a dois senhores”

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Publicado quinta-feira, 27 de janeiro de 2005 as 12:20, por: cdb

Em um clima de cordialidade e franqueza, realizou-se, na noite desta quarta-feira, a reunião do presidente Lula com membros do Conselho Internacional (CI) do Fórum Social Mundial, no Hotel Plaza San Raphael, em Porto Alegre. O encontro de mais de duas horas contou com cerca de 70 membros do CI, além do prêmio Nobel José Saramago e de vários ministros do governo, entre eles Tarso Genro, Olivio Dutra e Miguel Rossetto.

Trajando uma jaqueta clara e com boa disposição, Lula se dispôs, logo na abertura, a responder a quatro perguntas, ao invés de fazer um longo pronunciamento. Haviam sido selecionados previamente quatro membros do Conselho, dois homens e duas mulheres, a quem Lula respondeu ao longo da reunião.

Desconforto

Já na primeira questão, se viu refletido o clima de desconforto dos membros do CI com as orientações e o discurso do presidente brasileiro: o religioso francês François Houtart, expressando sentimentos de parte significativa do Conselho, disse a Lula, respeitosamente: “O senhor foi ovacionado, dois anos atrás em Davos. Eu entreguei-lhe em Porto Alegre, naquela ocasião, um papel dizendo que se houvesse um Tribunal Penal Internacional para crimes contra a humanidade, pelo menos a metade dos que ali estavam seriam réus. Eles estão pela privatização dos serviços públicos, pela destruição da economia camponesa e pelo livre comércio.

Que discurso o senhor vai fazer em Davos? Se for ovacionado novamente, nos tememos pelo futuro do Brasil. Se se opuser a isso, terá todo o nosso apoio. Não se pode servir a dois senhores.” Lula recordou que, quando veio a Porto Alegre, em 2003, disseram-lhe que se anunciasse que iria a Davos, seria vaiado. Mas ele diz não temer vaias, que a distância entre as vaias e os aplausos é pequena.

“A diferença é que uma se faz com as mãos e a outra com a boca”. Lembrou ainda que chega a Porto Alegre para discutir alternativas e que vai a Davos tratar de sensibilizar os grandes empresários e os governantes para o problema da fome no mundo, buscando demonstrar compatibilidade entre a ida aos dois Fórunss, discordando assim da dura questão colocada por Houtart.

Uma militante do Quênia manifestou em seguida discrepância com as posições brasileiras na OMC, que prejudicariam os pequenos paises africanos, vítimas as políticas de livre comércio dessa instituição, com a qual o Brasil estaria se manifestando de acordo. Da mesma maneira se expressou uma militante chilena da Via Campesina, pedindo para que as questões agrícolas ficassem de fora da OMC.

Lula relatou os esforços seus e do seu governo para uma aproximação com a África, falou de suas viagens ao continente e da sua disposição de convocar uma reunião dos países africanos e latino-americanos para defender seus interesses comuns.

Um membro italiano do CI, depois de agradecer a Lula, dizendo que jamais poderia dirigir-se dessa maneira ao presidente do seu país, relatou o Fórum realizado na Itália sobre a democratização das Nações Unidas. O presidente brasileiro reiterou os projetos do Brasil nessa direção, sugerindo que se convoque manifestação frente à ONU, em setembro, na abertura da próxima sessão da Assembléia Geral, para reivindicar a questão.

Presidente e sindicalista

A militante da Via Campesina recordou a Lula que eram ambos antes igualmente militantes do movimento dos trabalhadores, mas que agora, como ela não fala nem inglês e nem português, não pôde entender o que ele falou. Embora antes, mesmo falando português, quando ela era líder sindical e não presidente, ela entendia o que ele falava. Além da solicitação em relação à OMC, pediu a Lula que considere o fato de sua política de apoio às agroindústrias vai exterminar a economia camponesa. Lula disse que ele mesmo se entendia melhor quando era líder sindical, mas que agora é presidente de todos os brasileiros, tendo de ouvir e levar em conta a todas as