Criador do PCC se volta contra sua criação

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Publicado quinta-feira, 28 de novembro de 2002 as 01:03, por: cdb

As delações de José Márcio Felício, o Geleião, de 41 anos, além de revelar e nocautear 16 novos líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC), atingem pelo menos mais 20 pessoas acusadas de conivência e colaboração com a facção criminosa. Entre os denunciados estão quatro advogados e o diretor da Penitenciária do Estado, Maurício Guarnieri, que, segundo o denunciante, “deixa o PCC” à vontade e sem qualquer fiscalização.

Após ser jurado de morte e excluído da facção que fundou há quase 10 anos, Geleião decidiu, espontaneamente, ajudar a polícia a “exterminar” sua própria criação. Em troca, espera ter sua pena e a da mulher, Petronília Maria de Carvalho, a Petrô, reduzidas como prevê a lei (9.034/95) da delação premiada.

O JT publica ao lado as principais denúncias feitas por Geleião durante os 15 dias em que passou no Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic).

Ele foi interrogado pelo delegado Ruy Ferraz Fontes, responsável pelas operações de desmantelamento do crime organizado, e pelos promotores Roberto Porto e Márcio Sérgio Christino, integrantes do Grupo de Atuação Especial de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Um dos advogados citados é Abrahão Samuel dos Reis, de 39 anos, ex-defensor de Geleião, preso temporariamente desde quinta-feira. Ele foi apontado como o responsável por levar carros importados roubados em Campinas para serem trocados por cocaína no Paraguai. Segundo Geleião, Reis conduzia o carro até o Mato Grosso, onde entregava para outro traficante, que se encarregava de ir ao Paraguai para fazer a troca.

O advogado negou todas as acusações. Mesmo assim, ele e os 16 líderes apontados por Geleião foram indiciados pelo crime de formação de bando ou quadrilha. A liderança será removida até o fim da semana para presídios de segurança máxima instalados no interior do Estado, onde ficarão isolados no regime disciplinar diferenciado (RDD).

Nesses presídios, os presos ficam confinados em celas individuais 23 horas por dia incomunicáveis. A eventual ligação dos outros três advogados, dois deles defensores de Marcos William Herbas Camacho, o Marcola, – apontado como o novo manda-chuva do PCC- com a facção, está sendo investigada.

Geleião garante que os defensores do líder atuam como pombos-correios nos presídios.

Além deles, Ferraz prendeu outras duas pessoas acusadas de trabalhar para o PCC. Uma delas é Luiz Carlos Galelo, o sogro de David Stockler Maluf, o McGyver, acusado de ter montado o carro-bomba que deveria ter sido detonado no Fórum Criminal da Barra Funda, no último dia 8 de março.

Fontes continua as investigações contra o PCC objetivando prender os autores das mortes de Erenita Guedes Galvão, a Lenita, Lauro Carlos Gabriel, o Ceará, e Andrea Paredes Kalid, a Lili Carabina. Os três teriam sido mortos por ordem de Marcola, que nega ser líder da organização, em vingança à morte da ex-mulher, a advogada Ana Maria Olivatto Camacho.

A Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) informou que vai apurar as denúncias de Geleião sobre a atuação do diretor Maurício Guarnieri e a eventual utilização dos computadores da unidade, por detentos, para redação de manifestos e publicidades da organização criminosa.