Cresce o número de brasileiros presos ao tentar entrar nos EUA

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Publicado quinta-feira, 5 de setembro de 2002 as 01:00, por: cdb

O número de brasileiros presos ao tentar atravessar a fronteira dos Estados Unidos com o México está aumentando, segundo as autoridades que controlam a fronteira entre os dois países.

Só no sul do deserto do Arizona, 460 brasileiros foram presos tentando entrar no país nos sete primeiros meses deste ano. O número é 25% superior ao total de brasileiros presos no ano passado nesta região.

Esse aumento pode estar relacionado à ação mais intensa dos traficantes de imigrantes no Brasil, principalmente em estados como São Paulo, Goiás e Minas Gerais.

Segundo o porta-voz da Patrulha de Fronteira, Rob Daniels, viagens mais longas são mais lucrativas para os traficantes, o que poderia ser uma das razoes pelas quais a chamada máfia dos “coiotes” está se estabelecendo no Brasil.

Dívida

O mineiro Leonardo, 24 anos, saiu da cidade de Alvarenga no início de julho e hoje estáem Boston, nos Estados Unidos, onde trabalha cerca de 80 horas por semana para pagar uma dívida de US$ 5 mil que tem com a máfia dos coiotes.

Ele faz parte de um grupo de milhares de brasileiros que pagaram de US$ 6 mil ate US$ 13 mil para os traficantes para atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos ilegalmente.

O esquema envolve mexicanos e brasileiros que organizam toda a viagem do imigrante: de São Paulo até alguma cidade americana, principalmente, Houston, no Texas.

Geralmente, o imigrante paga metade do valor antes e durante a viagem. A outra metade é paga depois que a pessoa já está nos Estados Unidos.

“Eles pedem vários tipos de garantia para não levar calote do imigrante. Sabem onde minha família mora, não me arriscaria a não pagar. A gente, no entanto, não tem garantia nenhuma de que o esquema vai dar certo”, disse Leonardo.

Ele caminhou pelo deserto, passou fome e cruzou rios a nado durante os 12 dias da viagem que começou em São Paulo.

“Meu esquema custou US$ 10 mil, mas tem gente que paga mais. Hoje, é muito fácil encontrar representantes do esquema em qualquer esquina do Centro de São Paulo, por exemplo”, contou.

“O dinheiro inclui a passagem para o México e, supostamente, hotéis e comida. Mas a verdade é que passei fome e tive que dormir em um trailer por quatro dias no meio do deserto com outras 17 pessoas.”

“Ossos no caminho”

O grupo de 15 imigrantes ilegais, incluindo o “coiote”, caminhou durante quatro dias pelo deserto.

“Nos escondíamos durante o dia e caminhávamos durante a noite”, disse Leonardo, que estava acompanhado de outros cinco brasileiros.

Ele, que trabalhava como radialista em Minas Gerais, disse que, em diversos momentos, teve medo de morrer.

“Vi ossos humanos no caminho e percebi que, se você morre ali, ninguém vai te levar, você vai ficar no deserto sem que sua familia saiba o que aconteceu com você. Mas meu maior medo era da imigração”, disse Leonardo.

Ele já havia sido preso uma vez ao tentar atravessar a fronteira ilegalmente.

“Já havia tentado entrar nos Estados Unidos por aviao, mas fui deportado. Decidi apelar para os coiotes. Mas no meio da viagem, estava cruzando um dos canais a nado, puxando uma peruana que estava numa bóia. Quando chegamos do outro lado, fomos presos”, disse.

“A situação das mulheres é muito perigosa. Muitas vendem o corpo para atravessar a fronteira, mas muitas outras acabam sendo estupradas.”

“Conheci na prisão uma guatemalteca que estava com problemas físicos e psicológicos, depois de ter sido estuprada por 15 homens durante a travessia”, disse.

“É muito sofrimento, mas estar aqui compensa tudo isso”, completou Leonardo que, por temer as autoridades de imigração americanas, pediu que apenas o seu primeiro nome fosse publicado.