Condenação de ex-ditador divide opiniões na imprensa

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Publicado segunda-feira, 6 de novembro de 2006 as 13:17, por: cdb

A imprensa mundial ficou dividida, nesta segunda-feira, entre a aprovação e a desconfiança depois da condenação à morte do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein, anunciada a dois dias das eleições legislativas nos Estados Unidos. A condenação do ex-presidente pela morte de 148 habitantes xiitas em 1982 “não ofereceu ao Iraque nem a justiça total, nem a equidade total que merece”, sentenciou o influente jornal The New York Times, tradicionalmente contrário à pena de morte.

O Times pediu para que se adie a execução da sentença pelo menos até que termine o segundo julgamento contra Saddam, no qual é acusado de ordenar um genocídio contra os iraquianos de origem curda.

“O presidente George W. Bush foi muito ambicioso ao classificar o julgamento de ‘marco nos esforços dos iraquianos para substituir a tirania pela lei. O veredicto é um legado admirável do sacrifício americano no Iraque”, considerou, por sua vez, o Wall Street Journal. “Mas para torná-lo permanente, os Estados Unidos também devem derrotar a insurgência que combate em nome de Saddam'”, afirmou a publicação.

Segundo o Washington Post, o julgamento, mesmo que imperfeito, ajudará a instaurar a democracia no Iraque. “A curto prazo, a condenação de Saddam Hussein e sua eventual execução podem piorar o conflito civil no Iraque”, alertou.

Em Londres, apenas o tablóide The Sun parabenizou o veredicto. “Não pode haver um final mais merecido do que a forca para esse bandido que chegou a presidente”.

Seu principal competidor, o Daily Mirror (centro-esquerda), pediu ao mundo que “desconfie das felicitações pela condenação de um homem, mesmo que se trate de Saddam Hussein”. “Ele foi um ditador brutal, mas existe o risco de que seu enforcamento somente conduza a um maior derramamento de sangue”, advertiu. The Guardian, também de centro-esquerda, comentou que, “se um novo Iraque deve surgir das ruínas do velho, abster-se de cometer um assassinato legal seria um bom começo”.

The Daily Telegraph, de direita, afirma, por sua vez, que “a morte de Saddam não é condição suficiente para o estabelecimento da democracia no Iraque, mas é necessária”, enquanto que The Independent assinala que “nem o processo, nem seu desenlace terão o menor efeito na rebelião no Iraque”. Muitos meios de informação criticaram a intromissão americana no processo.

“Oficialmente, o julgamento foi organizado pelos iraquianos (…), mas os especialistas acham que a data do anúncio do veredicto foi eleita para mostrar aos eleitores (americanos) os progressos no Iraque, bem antes as eleições de meio mandato na terça-feira”, indicou o influente jornal japonês Asahi Shimbun.

Na França, Le Figaro (direita) considerou “uma lástima que este julgamento possa dar a impressão de legitimar uma intervenção militar lançada com falsos pretextos, quando deveria ser, ante de tudo,um ato fundador do Estado de Direito depois de 24 anos de ditadura”.

O jornal mais importante da Espanha, El País, assinalou, por sua vez, que “não cabe se alegrar com a condenação, entre outras razões pelas irregularidades processuais e a politização do julgamento”. Para o jornal alemão Berliner Zeitung, de centro-esquerda, o mundo arruinou “uma oportunidade histórica para compreender o sistema ditatorial de Saddam”. “Ao invés disso, a justiça foi manipulada pelas forças de ocupação”, lamentou.

O jornal paquistanês The Nation mostrou-se menos seguro de que Bush se beneficiará com a condenação de Saddam. “É altamente improvável que o veredicto possa beneficiar o governo Bush ou restaurara a confiança dos cidadãos americanos assustados com a quantidade de militares mortos”, indicou o jornal, que criticou um processo “com ares de farsa”.

O Sydney Morning Herald australiano respondeu com um “não categórico” à pergunta se a condenação de Saddam fortalecerá aos