Concordata “branca” da Globopar preocupa investidores nos EUA

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Publicado terça-feira, 29 de outubro de 2002 as 20:03, por: cdb

Os analistas do mercado financeiro em Wall Street não temem um “efeito dominó” no setor privado brasileiro depois do anúncio pela Globopar, empresa das Organizações Globo, de que irá reescalonar o pagamento da dívida e também depois do rebaixamento da classificação de risco da Klabin pela Standard & Poor´s (S&P). No entanto, as dificuldades de empresas de alta visibilidade, como as duas, poderão deixar os investidores mais nervosos em relação ao Brasil, reduzindo a intenção para aplicar no País.

“Essa decisão da Globopar não deverá representar um risco sistêmico, ou seja, atrasos ou reescalonamentos generalizados da dívida do setor privado”, disse à Agência Estado o diretor de pesquisa econômica para América Latina do banco West LB, John Welch. “Quando você tem uma desvalorização expressiva, alguns setores da economia sofrem. Os ganhadores são os exportadores”, disse Welch.

O fato de o sistema financeiro brasileiro estar sólido evitará que o setor privado em geral brasileiro sofra mais ainda em termos de pagamento das obrigações financeiras. “É possível, no entanto, haver mais duas ou três grandes empresas que venham anunciar atrasos de pagamentos da dívida, mas nada que represente um problema sistêmico”, disse Welch.

Na opinião do diretor de pesquisa para mercados emergentes do banco UBS Warburg, Michael Gavin, os anúncios relativos às duas companhias é um reflexo do estresse financeiro que o setor privado brasileiro enfrenta no momento. “É um efeito colateral da forte desvalorização cambial neste ano e é também o custo da crise de confiança que afeta a economia brasileira nos últimos seis meses”, disse Gavin, durante palestra promovida hoje pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos.

Para ele, o que aconteceu com a Globopar somente ressalta a necessidade de o novo governo de agir o mais rapidamente para restaurar a confiança dos investidores. “Dessa forma, a taxa de câmbio cairia para níveis em que as companhias brasileiras possam pagar suas dívidas externas”, afirmou.

Para o economista-sênior para América Latina do banco Lehman Brothers, Paulo Vieira da Cunha, o que ocorreu com a Globopar somente se transformará numa questão mais problemática se houver uma interferência do novo governo. “Mas há um entendimento melhor do PT e de lideranças empresariais de que esses problemas são individuais, tópicos, e que precisam ser tratados especificamente entre cada devedor e seus credores”, disse Cunha. “Não vejo um risco sistêmico no momento. Esses atrasos no pagamento da dívida são casos específicos. A maioria das empresas teve uma atitude mais prudente de remanejamento das suas obrigações financeiras e não estão encontrando esse tipo de pressão”, afirmou.