Comunidade das Nações

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 25 de junho de 2012 as 11:20, por: cdb

Mal se encerrou no Rio de Janeiro a conferência da ONU sobre sustentabilidade (Rio 92 + 20), todos perceberam que a ONU está esgotada e a possibilidade de uma verdadeira aliança de solidariedade entre os povos do mundo parece distante. Nesse contexto, só podemos nos alegrar com o início da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC), criada em Caracas no ano passado e que já reúne em um novo organismo regional todos os países da América Latina do México a Argentina e ainda o Caribe.

Essa integração era o grande sonho do libertador Simon Bolívar, expresso no congresso do Panamá em 1826. Naquele tempo, Bolívar se inspirou na união das antigas cidades gregas que eram autônomas, mas se ajudavam quando uma era invadida ou enfrentava uma necessidade maior (isso em política antiga se chamava anfictionia). Assim como os gregos costumavam realizar assembleias com representantes de todas as cidades e com direitos iguais de participação, também Bolívar realizou o congresso anfictiônico do Panamá criando a grande Colômbia que depois os interesses de alguns poderosos locais impediram que se realizasse. Somente agora depois de quase 200 anos, isso se tornou possível com o CELAC, como desejava o libertador: uma comunidade de nações soberanas, mas verdadeiramente irmãs.

No congresso do Panamá, a agenda previa a denúncia contra todo tipo de colonialismo e imperialismo de potências estrangeiras. E também a organização de uma justiça que previa a abolição da escravatura em todo o território da confederação e a instalação de uma rede de comércio justo baseado nas condições de cada povo. Hoje são 33 países integrados na CELAC. Esses países somam quase 600 milhões de habitantes espalhados por uma superfície de quase 20 milhões de quilômetros quadrados. O conjunto conta com um produto interno bruto (PIB) de seis bilhões de dólares. Isso equivale apenas à terceira parte do PIB dos Estados Unidos e Canadá juntos, mas é a região do mundo com maior produção e exportação mundial de alimentos. É a terceira do mundo em geração de energia. Conta com as maiores reservas de petróleo do mundo, mais do que o Oriente Médio e também é uma das regiões mais ricas em gás. Quase a metade da superfície dos países da CELAC é constituída de florestas e matas naturais e a região possui 30% de toda água doce do mundo. Além disso, é banhada por dois oceanos (o Atlântico e o Pacífico).

A grande novidade da CELAC é que os governantes dos países confederados assumiram o compromisso de rever o tipo de desenvolvimento capitalista até então vigente. “Não podemos, nós presidentes, continuar de reunião em reunião, enquanto nossos povos vão de mal a pior”, declarou o presidente Hugo Chávez, na inauguração da CELAC. A integração continental se dará pelo aumento da solidariedade verdadeira que Dom Pedro Casaldáliga chama de “ternura exercitada entre os povos”. Já temos alguns exemplos disso, como os médicos de família de Cuba que estão em missão no Haiti, na Bolívia, na Venezuela e na Guatemala e as brigadas de alfabetização de adultos que, segundo a ONU, tornaram a Venezuela um país livre de analfabetismo e agora trabalham na Bolívia.

Todas as tradições espirituais frisam que o projeto divino é a unidade entre os seres humanos e a comunhão desses com o universo. Esses instrumentos de integração do continente latino-americano e do Caribe são sinais e mediações que realizam ao menos em parte esse projeto divino sobre a humanidade.