Comunicado da CT da RTP sobre a decisão de acabar com o programa “Este Tempo”

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Publicado quinta-feira, 26 de janeiro de 2012 as 16:18, por: cdb

Com o título “Não basta sê-lo, é preciso parecê-lo”, a CT da RTP toma posição sobre a decisão do diretor geral da RTP de acabar com o programa da Antena 1, salienta que “a RTP fez uma triste figura e alimentou, no mínimo, uma suspeição de censura” e questiona “ se existe uma estratégia já delineada” para a empresa e se esteja “a proceder a uma reestruturação clandestina”.Artigo |26 Janeiro, 2012 – 19:20

A Comissão de Trabalhadores da RTP destaca ainda que o programa “Reencontro”, ao escamotear a realidade angolana, deu “execução e cumprimento às recomendações de um relatório que a abominação pública parecia ter relegado, merecidamente, para o caixote do lixo da História – o relatório Duque”, lembrando que nesse documento se defendia “a ideia peregrina de que a RTP devia tornar-se uma agência de comunicação do MNE”. A CT alerta ainda que “continua sem ser ouvida sobre o dito processo de reestruturação, como a lei determina”.

Transcrevemos na íntegra o comunicado da CT da RTP:

“Não basta sê-lo, é preciso parecê-lo

A decisão de acabar com o programa da Antena 1 “Este Tempo” suscitou generalizadas acusações de censura contra a RTP. O diretor geral da RTP rebateu estas acusações, alegando que o fim do programa já estava previsto e não constitui, portanto, uma retaliação contra as críticas que aí emitiu o colunista Pedro Rosa Mendes (PRM) sobre o programa “Reencontro” de Fátima Campos Ferreira. PRM retorquiu que nas últimas semanas estava em discussão a alteração do formato jurídico do seu contrato, mas nunca se anunciara a intenção de acabar com o programa. E afirma que a decisão de acabar com o mesmo lhe foi comunicada como reação à sua crónica sobre “Reencontro”.

No meio desta polémica, um primeiro ponto pode estabelecer-se como coisa certa: a RTP fez uma triste figura e alimentou, no mínimo, uma suspeição de censura que mesmo o desmentido do diretor geral não consegue dissipar inteiramente. Supondo que fosse falso tudo o que diz PRM sobre os preparativos para uma renovação dos contratos de “Este Tempo”, e que o fim do programa estivesse efetivamente previsto, pergunta-se: e ao dar a machadada final no programa não se percebeu como essa decisão, neste momento e neste contexto, só podia ser vista como censória? E não se percebeu como a acusação de censura lesava a imagem da rádio pública? E não se percebeu como esses estragos na imagem da RDP se tornavam duplamente graves na sequência dos estragos que o programa “Reencontro” tinha deixado no prestígio da televisão pública? E este é o segundo ponto que pode considerar-se estabelecido para além de qualquer dúvida razoável: ao escamotear a realidade angolana, o programa “Reencontro” deu, afinal, execução e cumprimento às recomendações de um relatório que a abominação pública parecia ter relegado, merecidamente, para o caixote do lixo da História – o relatório Duque. Nesse documento expendia-se a ideia peregrina de que a RTP devia tornar-se uma agência de comunicação do MNE. O programa “Reencontro” veio mostrar que o defunto relatório continua, por trás dos bastidores, bem mais vivo, perigoso e nefasto do que o clamor de repúdio da opinião pública parecia permitir. Admitindo que sejam certas as explicações dadas pelo diretor geral da RTP, fica ainda uma outra questão por esclarecer: em que conceção de futuro para a rádio e a televisão públicas se inscreve a decisão de acabar com o programa “Este Tempo”? Damos por suposto que não se tomam nesta casa decisões avulsas e que cada passo pontual corresponde a uma estratégia de maior fôlego – ou seria adiado até existir essa estratégia, com a vantagem adicional de ser dado em momento mais oportuno e sem o estigma desta aparência atentatória da liberdade de expressão. Ora, se existe uma estratégia já delineada, então está-se a proceder a uma reestruturação clandestina, evitando chamá-la pelo seu nome e evitando pôr as cartas na mesa. Talvez por isso, esta CT continua sem ser ouvida sobre o dito processo de reestruturação, como a lei determina.

Lisboa, 25 de janeiro 2012
Comissão de Trabalhadores da RTP”

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