Como tirar vantagem do inimigo

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Publicado terça-feira, 22 de novembro de 2005 as 00:33, por: cdb

A oposição deseja que Lula já se declare candidato à reeleição e inicie a campanha, antes do prazo normal. É um jogo perigoso para os dois lados. O propósito dos oposicionistas é o de dispor de desculpa para aguçar os ataques ao presidente da República. Ao assumir a posição de candidato explícito, o chefe de governo passa a ser o alvo consentido dos adversários.

No próprio PT há quem deseje já o deflagrar da campanha sucessória. O cálculo é que, transferindo a batalha política para a expectativa eleitoral, os ataques assumam outro sentido. Será uma incoerência, por exemplo, insistir na tese de “impeachment” em plena campanha sucessória. Mas é preciso cautela. É da tradição de nossa pobre e anêmica República a articulação conservadora sob os pretextos de ocasião. Contra Vargas, e sem nenhum amparo constitucional, levantou-se a tese da maioria absoluta, em 1950. A mesma e esdrúxula idéia foi retomada em 1955, com o propósito de impedir a posse de Juscelino e Jango. Não está fora de propósito que, confirmado o favoritismo de Lula, venham a surgir expedientes parecidos.

Lula, como se sabe, foi contra o instituto da reeleição. A emenda constitucional que introduziu esse absurdo em nosso sistema republicano foi obtida nós sabemos como. Ela tinha como objetivo manter um grupo no poder, a fim de garantir, entre nós, a nova ordem mundial, saudada pelo Sr. Fernando Henrique Cardoso como um novo Renascimento. Para ser coerente, Lula não deveria disputar novo mandato. Mas as circunstâncias mudaram. Até mesmo pelo fato de existir, a reeleição dificulta o aparecimento de candidatos viáveis para a disputa. O titular da Presidência é o candidato natural das forças que o elegeram antes. Se não houver uma expressa renúncia a essa disputa – o que é quase impossível – só os outros partidos terão que se mover para encontrar o candidato ideal, a fim de lhe fazer frente.

O Sr. Fernando Henrique Cardoso, que não perdeu a jactância, disse que quer Lula logo na disputa e, sem os cuidados da modéstia, diz que, tendo vencido o atual presidente duas vezes, será fácil vencê-lo uma terceira. Com isso desqualificou o Sr. José Serra, que não conseguiu vencer Lula, e desmereceu os outros companheiros de partido que pensam disputar o pleito, como Geraldo Alckmin e Tasso Jereissatti.

O fato é que o processo da sucessão não será tranqüilo. Se for suficientemente frio, o presidente não aceitará precipitar a campanha eleitoral, meditando seriamente nos meses a vir. Ele, candidato ou não, é o maior detentor de votos populares no Brasil. Se bem lhe pareça mais fácil eleger-se, é de sua inteligência supor que, muitas vezes, um líder transfere mais do que tem, quando apóia outro candidato. Se Getúlio tivesse sido candidato em 2 de Dezembro de 1945, logo depois de deposto pelos militares, provavelmente não teria sido eleito, mas, sem seu apoio, Dutra não derrotaria o brigadeiro Eduardo Gomes.

Se a Oposição está interessada em que ele se declare logo candidato, a boa prudência lhe aconselha o contrário. Até mesmo para deixar seus adversários na dúvida – e qualquer dúvida a esse respeito lhe é favorável – fará melhor o presidente se guardar o silêncio por mais alguns meses. Até março muita coisa ainda pode ocorrer, e é melhor que ele preserve sua autoridade presidencial desvinculada da imagem de candidato, a fim de que possa exercê-la, se as circunstâncias exigirem. A esse respeito, seria bom que Lula lesse um pequeno livro de Plutarco, com o título sugestivo de “Como tirar vantagem de nossos inimigos”.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.