Como o brilho da estrela

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Publicado terça-feira, 10 de dezembro de 2002 as 20:33, por: cdb

Outrora a colonização unilateral que recaiu sobre nossos ancestrais como uma “descoberta”, tratava essas terras como uma terra de gentios, selvagens, preguiçosos, sem dono. Hoje, como povos indígenas, podemos afirmar nossa disposição crescente de jamais permitir sob quaisquer argumentos, inclusive a justificativa do desenvolvimento, a violação básica da nossa sobrevivência, como a destruição da terra e do meio ambiente.
Com o espírito de que estamos começando um novo tempo para o Brasil, 95% dos eleitores indígenas, mesmo considerados incapazes perante a Lei do homem branco, decidiram eleger com seus votos Luís Inácio Lula da Silva, como o presidente do nosso país.
Queremos destacar com isso um processo irreversível de participação indígena, principalmente nas questões que afetam nossas aldeias e comunidades.
Ao longo dos últimos anos, por exemplo, assistimos impotentes, à terceirização das ações de responsabilidade essencial do governo federal, num desmantelamento proposital e sutil do papel para a qual fora criada a única instituição legada por Rondon dentro do sistema federal de relacionamento conosco e defesa dos nossos direitos, a Fundação Nacional do Índio.
Nunca fomos considerados em quaisquer implantações das chamadas políticas públicas, a não ser talvez, “como aqueles que dependem do homem branco…”. Por isso o Governo do Brasil nunca teve uma política indigenista eficaz e eficiente. A tal ponto que aliados históricos como antropólogos, indigenistas e sertanistas foram indo embora e com isso, o espírito rondoniano de “fazer do índio, um índio melhor”.
Mas os povos indígenas, com seus líderes políticos e tradicionais, não se deixaram esmorecer. Numa persistência em suas aldeias e no centro do poder em Brasília, construíram um caminho de resistência e sobrevivência. Destacou-se, ainda em plena ditadura militar, o surgimento do primeiro movimento político indígena através de um grupo de estudantes bolsistas da FUNAI. Então, ao criarem um time de futebol com o nome de “União das Nações Indígenas”, deixaram boquiabertos não apenas o governo ditatorial, como também missionários, indigenistas, políticos e a mídia de forma geral. Um caminho indígena que levou um dia ao primeiro cruzamento com o então sindicalista Lula.
Hoje, diversas lideranças indígenas, chefes de comunidades, líderes espirituais e organizações próprias se vêm capacitando cada vez mais. Já mantêm uma estreita relação com entidades internacionais como o Banco Mundial, ONU, União Européia e o Parlamento Europeu. Isso para corrigir os erros do passado – os investimentos em nome do progresso que empobreceram diversas aldeias e destruíram recursos naturais, fonte de riqueza para a qualidade da vida indígena e da humanidade.
Agora, quando nosso país leva o governo federal a vestir a camisa 13 do Partido dos Trabalhadores com a eleição de Lula, nós os povos indígenas com direito reconhecido sobre 12% do território nacional falando 180 línguas e divididos em 230 sociedades, queremos fazer parte do grande sonho e da esperança brasileira por uma vida melhor.
Acreditamos que o reconhecimento público do governo federal aos nossos direitos começa ao assegurar nossa participação nas mesas de negociações, seja na crítica ou na construção de um plano estratégico de etnodesenvolvimento. Isso deve ser feito através da reorganização do órgão indigenista oficial. Não podemos aceitar que um governo que rompe com toda uma tradição da política brasileira, deixando de lado velhos coronéis e raposas insaciáveis, cometa os mesmos erros primários que colocaram o índio fora do processo de construção da democracia social e do direito ao crescimento econômico, tratando-o de forma paternalista que neutralizou suas forças naturais como povo.
Para a construção do Brasil, mais de mil povos desapareceram principalmente no sul, leste e nordeste, o que consideramos uma dívida histórica e moral do governo. Este que sempre patrocinou os grandes investimentos de interiorização do des