Como naquele tempo

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Publicado quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012 as 10:58, por: cdb

Ditadura. Os governos militares e seus milagres econômicosforjados eram extremamente vigilantes para que a sua imagem não fosse maculadaatravés de denúncias de violação de direitos humanos e étnicos dos povosindígenas. O serviço de inteligência SNI (Serviço Nacional de Informação),estava organizado com equipes dentro da Funai, para evitar vazamento deinformações e controlar as lideranças e o movimento indígena e indigenista. Desta forma,conseguiam de alguma forma, impedir constantesdenúncias de violências contra os povos indígenas, situações de massacre egenocídio.

Superada a fase da ditadura, não se poderia imaginar que oserviço de inteligência fosse novamente acionado pela Funai para impedir adivulgação da realidade de extrema violência contra os povos indígenas KaiowáGuarani fosse divulgada pela imprensa internacional.

Na semana passada, em articulação com o movimento da Aty Guasu,uma equipe de reportagem canadense esteve em várias áreas Kaiowá Guaranidocumentando as violências e agressões que sofreram, principalmente a partir dofinal do ano passado. Quando iam concluir o trabalho junto à Funai de Dourados,foram surpreendidos com uma ordem de prisão e apreensão de toda a documentaçãorealizada durante uma semana. Não foi levada em consideração a veementeargumentação das lideranças indígenas, de que eram eles, e não o governo quedecidiam quem eles queriam que os apoiassem. Depois horas e de alguns contatoscom escalões superiores, do Palácio do Planalto e Embaixada, os repórterescanadenses, um dos quais trabalha no New York Times, foram liberados, e deixaremem seguida o país. Parecia uma cena do passado, porém muito atual e emDourados. Conforme Eliseu Lopes “é um absurdo o que aconteceu na Funai”.

O movimento da Aty Guasu, que hoje inicia mais uma GrandeAssembleia em Jaguapiré, reagiu contra o desrespeito às decisões e direitosindígenas. A Aty Guasu estará pautando, discutindo e tomando decisões comrelação à falta de políticas claras do governo, com relação a seus direitos,especialmente a não demarcação e garantia das terras indígenas.

Em nota o Conselho daAty Guasu se manifesta dizendo que “Apesar da existência de nosso direito arecuperar as nossas terras antigas, porém entendemos que até hoje não há aindauma política clara do Governo Federal para efetivar a demarcação definitiva dasnossas terras tradicionais, isto é, em nossa visão não existe uma posição eação segura do Estado-Nação e da Justiça para efetivar a devolução da parte dosnossos territórios tradicionais reivindicados. Exemplo: a identificação edemarcação de nossos territórios Guarani-Kaiowá iniciadas pela FundaçãoNacional dos Índios (FUNAI) ao longo das décadas de 1990 e 2000 se encontram todasparalisadas nas Justiças.” ( Nota do Conselho da Aty Guasu, 28-02-2012) Apóstecer considerações sobre as políticas de Educação e Saúde indígena, afirmam “pensamosque seria necessário se construir uma política do Estado para adevolução/demarcação definitiva das partes de nossas terras tradicionalmenteocupadas por nós Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul…”. Cientes de nossashistórias e direitos, como povos indígenas, nós lideranças da Aty GuasuGuarani-Kaiowá vamos lutar reiteradamente pela efetivação dos nossos direitosno Estado do Mato Grosso do Sul e Brasil.” (idem)

AComissão da Aty Guasu que esteve visitando e documentando a realidade vivida emvários acampamentos indígenas na região do cone sul do Mato Grosso do Sul,produziu um relatório que será pauta das discussões da Aty Guasu que iniciahoje em Jaguapiré “nós da comissão da Aty Guasu, consideramos que todos osrelatos das lideranças das áreas reocupadas serão pautas da Aty Guasu, portantoefetuamos os registros dos fatos constatados durante a nossa visita aosreferidos acampamentos indígenas, e por fim submetemos a apreciação de todas asautoridades brasileiras (MPF,SDH, PRESIDENTE DA REPÚBLICA, FUNAI, FUNASA, ETC)para tomar providências cabíveis e legais”.

Visitas esperançosas

Apesarde toda a situação traumática vivida por várias comunidades Kaiowá-Guarani, oclima é de esperança e confiança no seu processo organizativo e apoio dosaliados para avançarem na conquista de seus direitos, especialmente à terra. Visitasde advogados e uma desembargadora Kenarik Boujikian Felippe, da “Associação de Juízespara a Democracia – AJD” tem contribuído, não apenas para denunciar asviolências e situação de genocídio enfrentadas por algumas comunidades, masespecialmente para reforçar a esperança da conquista de dias melhores para osofrido povo Kaiowá Guarani.

Égrande a movimentação das lideranças para Jaguapiré, para esse grande momentopolítico e celebrativo. Não tem tempo ruim. Enfrentam a lama, a chuva e o solcom a mesma confiança e determinação. “Vamos fazer avançar nossos direitos,vamos chegar mais perto da nossa terra dos nossos tekohá.”

PovoGuarani Grande Povo
Cimi40 anos – Regional MS
Finalde fevereiro de 2012.