‘Comandante Lola’: causas do conflito na Guatemala seguem intactas

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Publicado segunda-feira, 30 de janeiro de 2012 as 14:07, por: cdb

Alba Estela Maldonado, a lendária “Comandante Lola”, busca um lugarsombreado e afastado, e se senta. Em suas mãos, curtidas pela vida, há váriascópias do livro Entre-Vistas, obra publicada recentemente pela FundaçãoGuillermo Toriello e pelo Centro “Rolando Morán”, pseudônimo de guerra dodirigente e comandante guerrilheiro guatemalteco Ricardo Ramírez de León, mortoem 1998.

Fala com voz firme e pausada, abrindo e fechando o livro que reúneconversas, artigos e entrevistas feitas por Ricardo Ramírez durante o longoprocesso de negociação de paz na Guatemala (1986-1996). Alba Estela percorresuas páginas e fotos, transmitindo em cada palavra a importância do conteúdo ea grandeza de preservar a memória histórica de um povo inteiro.

“Aqui há a visão e a essência do surgimento da URNG (UnidadeRevolucionária Nacional Guatemalteca) no contexto do diálogo com o governo, queconduziu a assinatura do acordo de paz na Guatemala. Com nossas propostaspretendíamos democratizar o país em um sentido global, incluindo os aspectospolíticos, econômicos, sociais e culturais”, afirmou Alba Estela ao OperaMundi.

A lendáriaex-dirigente guerrilheira guatemalteca faz um
balanço 15 após a assinatura dos Acordos de Paz

Aspirações e convicções que adquirem hoje um significado muitoparticular para o povo guatemalteco, que comemora 15 anos da assinatura dosAcordos de Paz que puseram fim a 36 anos (1960-1996) do conflito armado internoque assolou o país centro-americano. A ex-dirigente guerrilheira de cabelosnegros viveu na própria pele o genocídio de seu povo e assegura que manter vivaa memória “é uma ferramenta fundamental para as novas gerações e o futuro dopaís”.

No começo da década de 1960, Alba Estela apoiou atividades deresistência e guerrilha urbana, e começou a fazer parte de várias organizaçõesjuvenis comprometidas com a luta de libertação, o que a obrigou a prontamenteentrar na clandestinidade.

Cofundadora e dirigente nacional junto de Ricardo Ramírez, do EGP(Exército Guerrilheiro dos Pobres), uma das quatro forças guerrilheiras que em1982 se uniriam para compor a URNG, Alba Estela Maldonado viveu por quase 34anos na guerrilha, 16 deles “na montanha”. Depois da abdicação das armas e daconversão da URNG em partido político (1998), a ex-comandante guerrilheira foisecretária-geral dessa nova força política e foi eleita deputada do Congressoda Guatemala durante a legislatura 2004-2008.

“Foram quase quatro décadas de conflito armado, em que a lutaguerrilheira soube convocar e unir amplos setores de todos os estratos sociaisdo país, e se opor ao genocídio sistemático da população, sobretudo dos povosindígenas”, afirmou Alba Estela.

Genocídio

Em seu livro El recurso del miedo – Estado y terror en Guatemala,o sociólogo Carlos Figueroa Ibarra afirma que o país viveu, na segunda metadedo século passado, “o maior genocídio observado na América contemporânea”.

O que ocorreu durante o conflito foi investigado no marco do Projetolnterdiocesano REMHI (Recuperação da Memória Histórica). A apresentação dodocumento final “Guatemala: Nunca mais” ficou a cargo do bispo Juan JoséGerardi, diretor da ODHAG (Oficina de Derechos Humanos del Arzobispado deGuatemala, em português Escritório de Direitos Humanos do Arcebispado daGuatemala).

Segundo essa investigação, entre 1954 e 1996, aproximadamente 150 milguatemaltecos foram executados extrajudicialmente e mais 50 mil foramdesaparecidos de maneira forçada. Mais de 600 massacres e 440 comunidades maiasexterminadas deixaram como sequela um milhão de exilados e refugiados, 200 milórfãos e 40 mil viúvas. Nove em cada dez vítimas eram civis desarmados, em suamaioria indígenas.

Em suas conclusões, o documento evidenciou também que pelo menos 60% dasmais de 55 mil violações de direitos humanos cometidas contra a população foide responsabilidade direta do Exército. Dois dias depois da apresentação doinforme, em 24 de abril de 1998, o monsenhor Gerardi foi brutalmenteassassinado.

“Diante de todas estas atrocidades, a URNG lutou sem descanso efinalmente pretendeu negociar uma paz verdadeira baseada na mudança do modeloeconômico e político vigente, com uma transformação real das estruturas doEstado que por 36 anos desenvolveu unicamente uma ofensiva contrainsurgentecontra o povo”, assegurou a ex-comandante guerrilheira.

No entanto, segundo ela, a pressão de grupos de poder, poderes paralelose a falta de vontade política desvirtuou esse esforço. “Os Acordos de Pazconstituiram um passo importante a fim de democratizar o país, mas a oligarquiaaproveitou a paz para abrir o caminho para as políticas neoliberais. AGuatemala continua imersa na violência e na pobreza, e as causas profundas queoriginaram o conflito seguem intactas”, afirmou sem hesitações.

O ex-generalOtto Pérez Molina, acusado de violações dos
direitos humanos durante guerra civil, foi eleito presidente

Resistência

A cada palavra, Alba Estela parece buscar em sua memória o mais profundodos conceitos expressados. Uma vida de luta e de compromisso que une suasraízes no amor por seu povo e no combate à injustiça. Um sentimento que lheacompanhou em todos os momentos da vida e que, apesar das dificuldades, a fazemolhar para o futuro com renovada esperança.

“Houve avanços rumo à tomada de consciência por parte das populaçõesindígenas em relação à identidade e ao uso e defesa de seus direitos, mas osgovernos que se alternaram no poder durante os últimos 15 anos não apenasdescumpriram e desvirtuaram cada um dos Acordos, como aprofundaram um modeloeconômico altamente antidemocrático”, disse.

Segundo ela, a forte onda de privatizações, a espoliação das terras esua reconcentração em poucas mãos, a desregularização do trabalho e acriminalização das manifestações sociais, assim como a implementação semcontrole da monocultura (cana-de-açúcar e palma africana) e o impulso dosmegaprojetos hidroelétricos, mineiros, madeireiros e petroleiros, são umexemplo do retrocesso que o país está vivendo e das novas formas de dominação.

Além disso, os altos índices de violência, o fortalecimento donarcotráfico e do crime organizado, assim como o processo de militarizaçãoimplementado em quase todo o território nacional, não deixam de preocupar ossetores e organizações sociais guatemaltecas.Diante desta situação, aex-comandante guerrilheira considerou imprescindível retomar e divulgar quaisforam os elementos substantivos do projeto revolucionário que originou a lutaarmada, assim como sua proposta política.

“Fazer isso é uma responsabilidade histórica e pode servir como um marcoao acionar os setores que querem mudanças substantivas na Guatemala, e queestão lutando contra estes novos modelos de exploração.Já estamos vendocom as lutas que o povo está se livrando dos megaprojetos, da mineraçãometálica e da espoliação de territórios. Vai ser parte do acervo cultural epolítico das novas gerações de jovens e das pessoas que continuam tendoinquietudes democráticas e progressistas”, concluiu.