Colírio pode ter deixado 13 pessoas cegas

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Publicado sábado, 14 de junho de 2003 as 10:38, por: cdb

Um colírio fabricado por um laboratório sem licença pode ter causado cegueira em 13 pacientes de catarata no Rio de Janeiro. As vítimas entraram nas salas de cirurgia com a expectativa de, em cerca de uma hora, voltarem para casa com a visão perfeita.

No entanto, 48 horas depois, os 13 pacientes estavam cegos. As vítimas foram operadas neste ano para a retirada de catarata (opacidade da lente natural do olho que acomete 1% da população com mais de 50 anos). O provável responsável pela tragédia é o produto Methyl Lens Hypac 2%, a metilcelulose, fabricada por uma empresa sem registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), distribuída pela empresa Mediphacos e aplicada no olho das vítimas durante a operação.

A Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO) investiga a presença da bactéria intestinal Enterobacter cloacae, que contaminou os pacientes, no medicamento. O advogado Alessandro Paula Freitas pretende entrar na segunda-feira com uma ação civil contra a Santa Casa de Misericórdia do Rio e a Mediphacos por danos morais, estéticos e materias a Cezar Augusto Caguano Turuchina, de 69 anos, e Leontina Viana Lopes, de 64 anos.

Os dois foram operados no dia 4 de fevereiro e, dois dias depois, apresentaram sintomas de infecção. De volta à Santa Casa, o médico responsável tentou mas não conseguiu recuperar a visão dos pacientes. “Vou também procurar o Ministério Público. Se entenderem que cabem mais investigações, vou direto ao delegado especializado”, disse o advogado.

O oftalmologista Evandil Bandeira Júnior, que operou as duas vítimas na Santa Casa, comunicou os casos à chefia de enfermaria do hospital e à SBO. Ele mesmo patrocinou uma prótese para o olho de Leontina. Filha da vítima, Iolanda conta que a mãe precisava retirar a catarata do outro olho mas não tem coragem.

Por dois meses, ela sequer saiu de casa. Leontina, que era passadeira, não pode mais trabalhar. “Ela entrou enxergando um pouco e saiu cega. O médico diz que foi a metilcelulose. Ela ficou dois meses com muita dor, depois ficou cega, perdeu a córnea. A aparência ficou muito ruim e ela, muito abalada. Não saía na rua por nada nesse mundo. Queremos, em primeiro lugar, justiça, porque dinheiro nenhum vai trazer a visão da minha mãe de volta. Quero que o responsável vá para a cadeia”, desabafa Iolanda.

Em ofícios do oftalmologista, ele relata que as cirurgias para retirada de catarata foram seguidas de endoftalmite (infecção intra-ocular). Num dos documentos, em que solicita análise de amostras da metilcelulose usada, ele afirma que em outro laboratório do Rio houve um resultado positivo para a bactéria na metilcelulose do mesmo lote. Análise de um terceiro laboratório não teria detectado a bactéria no medicamento. No entanto, uma química que não quis se identificar disse que o resultado negativo pode ser atribuído à pequena quantidade da amostra.

No Hospital do Fundão, outros cinco casos de endoftalmite devido à contaminação do medicamento foram registrados. O hospital diz lamentar o ocorrido e recomenda que as vítimas procurem a Sociedade Brasileira de Oftalmologia. Outro hospital de uma grande cidade fluminense registrou mais de cinco casos.

Vendido pela empresa Lenssurgical Oftalmologia Indústria e Comércio Importação Exportação Ltda., o medicamento foi interditado no dia 4 de fevereiro pela Anvisa. A Lenssurgical, com sede em Campinas, foi fechada e todos os seus produtos, suspensos, porque o fabricante não estava autorizado pela Anvisa. A agência afirma, no entanto, que não analisou a metilcelulose da empresa, o que só ocorreria se tivesse recebido denúncias.

A Mediphacos, distribuidora da metilcelulose para pelo menos dois hospitais em que os casos foram registrados, diz ter interrompido a venda do medicamento logo que soube da interdição pela Anvisa. Conforme o diretor industrial da empresa, Marcelo Camargos, no entanto, a empresa não foi informada sobre a possível contaminação da metilcelulose. Ele conta que ho