Cobranças

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Publicado sexta-feira, 27 de junho de 2003 as 19:51, por: cdb

Pior que cobrança de credores é a de quem se sente lesado em seus sentimentos. Devido à minha ontológica insuficiência, projeto nos outros as minhas ansiedades, expectativas e esperanças. Isso é normal, pois o mimetismo é inerente à educação. Busco no outro – o pai, o amigo, Deus – aquilo que não sou e nem tenho e, no entanto, faz com que o brilho do outro ofusque o meu. Quem sabe estar próximo a ele embeba-me do que o torna admirável a meus olhos.

Da projeção, no início sutil, inconsciente, disfarçada de gratuidade, emerge a identificação. Acho que o outro deve fazer de mim o centro de sua atenção, já que o promovi a alvo da minha. Quero a reciprocidade, o reconhecimento, o movimento dele em minha direção.

Instaura-se, pois, de modo quase imperceptível, o processo de cobrança. Nem sequer desconfio de que o outro não tem comigo a mesma identificação que tenho com ele. Não sou o alvo da atenção dele. Mas como ele é o da minha, prefiro não admitir o contraste, abafando, assim, o que poderia irromper como um princípio de ciúme.

Da identificação, passo à apropriação simbólica do outro. A amizade dele me agrada, infla o meu ego e, portanto, devo cuidar de tê-lo sempre por perto. Inicia-se o jogo de sedução: agrados, elogios, presentes. Como a aranha, armo a teia para enredá-lo. Quero-o sob o meu controle.

Quanto mais me julgo próximo dele, mais me cubro com a ilusão de que ele tem por mim os mesmos sentimentos que nutro por ele. É isso que me faz acumular, virtualmente, na contabilidade de minhas emoções, um ativo que, na verdade, se traduz na ilusão de que a minha carência deixou de ser um profundo buraco pelo simples fato de o outro tapá-la com uma pele delgada e frágil – a delicadeza de sua boa educação. Tal cegueira faz com que eu confunda gentileza com carinho, sorriso com amizade, atenção com dedicação.

Um dia as escamas caem dos olhos. Descobre-se que o outro tem mais afinidades com terceiros, reserva o seu afeto mais profundo a outros, sente-se mais à vontade com outras companhias. Vem, então, a mágoa, a ferida, a dor e, com elas, a cobrança.

Como um vulcão, a cobrança tem matizes e fases. Primeiro, a fumaça sob a qual me escondo, fazendo-me de vítima. Em seguida, a larva das palavras ferinas, da agressão, da rejeição, como se agora eu impusesse a ele a mesma distância que, afinal, descobri que ele mantém entre nós. Depois, a explosão, o ódio, a injúria. Vem à tona o débito infinito. Ele me deve. Ele roubou parte de mim e está obrigado a devolvê-la. Como não posso arrancar um pedaço dele, faço-o moralmente, destruindo a sua boa fama, minando as suas amizades, clamando quão mau-caráter e monstruoso ele é.

Embora nada disso passe pela cabeça e pelos sentimentos dele, e eu seja a única vítima de mim mesmo, torno-me credor de uma dívida que insisto em obrigá-lo a pagar. Cobro, cobro, cobro, com toda a força da memória ressentida. Cobro de mim mesmo a incapacidade de aceitar o outro como ele é e não como eu gostaria que fosse.

Se ele é uma pessoa pública – atleta, artista, político – esforço-me por obter ao menos um sinal de que não sou totalmente ignorado por ele: um abraço, uma assinatura, uma foto. Se me escapa a sensatez, desperto o canibal que me habita e procuro devorar o objeto de meu apreço, agora transformado em possessão, como o fã que matou John Lennon. Se não é meu, que não seja de mais ninguém. A admiração transmuta-se em inveja – que é a tristeza de não ser ou ter o que o outro é ou tem. A profunda frustração de não desfrutar dos mesmos bens que, aos meus olhos, faz do outro uma pessoa vitoriosa e feliz.

Para se evitar a cobrança, só há um antídoto: a humildade de ser o que se é, sabendo perder e preservar a auto-estima.

Frei Betto é escritor, autor de “O Vencedor” (Ática), entre outros livros