Cinema espanhol de luto pela morte de Paco Rabal

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Publicado quarta-feira, 29 de agosto de 2001 as 20:10, por: cdb

O ator espanhol Francisco Rabal, de 75 anos, morreu na tarde desta quarta-feira, durante o vôo da British Airways de Londres e Madrid. O ator, que sofria de bronquite crônica (mas que ainda assim continuava a fumar dez cigarros por dia), teve uma parada respiratória.

O avião aterrizou no Aeroporto de Bordéus, onde foi confirmado o óbito pelas autoridades. Asunción Balaguer, atriz e mulher de Rabal, que o acompanhava na viagem de regresso de Montreal, onde tinha sido homenageado no Festival de Filmes do Mundo, recebe apoio de amigos enquanto os dois filhos do casal, a atriz e cantora Teresa Rabal e o produtor Benito Rabal, não chegam à Paris, onde se encontra.
Vários cineastas lamentaram a morte de Rabal, um dos mais expressivos atores espanhóis. José Luis Borau, citado pelo diário espanhol “El País”, considerou o ator “um dos protagonistas do cinema espanhol dos últimos 50 anos”, acrescentando que Rabal levou o cinema nacional ao mundo. Também o realizador Juanma Bajo Ulloa recordou o gosto de Rabal por contar histórias, “histórias que dava gosto ouvir”, as que Rabal contava nas suas últimas viagens por Espanha, durante recitais de poesia.

Jaime de Armiñan, por seu lado, assegurou que com a morte de Rabal perde “um irmão, com o qual trabalhou intensamente, durante muitos anos”.

Já o director da Mostra Valencia Cinema del Mediterrani, Jorge Berlanga, qualificou Rabal como um “ator visceral, de raça e coração”, mostrando-se triste e surpreendido com a morte do ator.

Ator emblemático, homem de convicções

Homem de esquerda, com fortes convicções políticas, Rabal afirmava na sua última entrevista ao “El País” (20 de Maio de 2001) que, apesar das mudanças, Espanha ainda cheirava a Franco e que iria odiar o atual primeiro-ministro José María Aznar.

Não gostava deste “mundo da informática, da demografia e da globalização”, que, como dizia Buñuel, são, juntamente com a ciência, os quatro cavaleiros do apocalipse, que afogam a Ásia e a África e separam a América Latina.

Filho de um mineiro, Rabal partiu para Madrid aos seis anos de idade, onde vendeu pelas ruas, com o pai, rebuçados e gomas às crianças.
Anos mais tarde, trabalhou numa fábrica e frequentou as aulas noturnas dos Padres Jesuítas de Chamartín de la Rosa, onde viria a encenar as primeiras peças de teatro. Foi daí que partiu para os recém-criados Estúdios Cinematográficos Chamartín, onde foi admitido como aprendiz de eletricista. Da eletricidade, Rabal passou a representar pequenos papéis como figurante em filmes de Rafael Gil (“La Pródiga y Reina Santa”, em 1946) e José López Rubio (“El Crimen de Pepe Conde”, em 1946, e “Alhucemas”, em 1947).

Depois dos papéis no cinema, seguiu-se novamente o teatro, como ator profissional da Companhia Lope de Vega, onde conheceu a sua mulher, Asuncíon Balaguer, com quem viria a casar em 1951.
A partir daí, Rabal alternou papéis na Sétima Arte com os seus desempenhos cénicos, tornando-se cada vez mais conhecido do público.
Mas, foi no final dos anos 50, que se deu o momento crucial na carreira de Paco Rabal. O ator cruzou-se com o emblemático realizador espanhol Luis Buñuel e desse encontro nasceram alguns dos mais memoráveis desempenhos do actor: “Nazarín”, em 1958, “Viridina”, em 1961, e “A Bela de Dia”, em 1966.

Com Buñuel, a projeção internacional do actor atingiu o auge e nos anos seguintes Rabal filmou com alguns dos mais importantes realizadores europeus, entre os quais os italianos Michelangelo Antonioni e Luchino Visconti e o francês Jacques Rivette.
Em 1984, conquista com “Los Santos Inocentes”, de Mario Camus, o Prémio de Melhor Interpretação Masculina no Festival de Cannes, a que se seguiriam muitos outros prêmios em festivais.

A idade e a doença nunca foram preocupações para Rabal, que continou a representar nos últimos anos de vida com a mesma intensidade, encarnando personagens para os realizadores espanhóis José Luis Cuerda, Juanma Bajo Ulloa e Carlos Saura. Com este último, representou o