Chile quer resolver problemas do passado

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Publicado sábado, 21 de junho de 2003 as 19:56, por: cdb

A menos de três meses do 30º aniversário do golpe que levou Augusto Pinochet ao poder, o Chile tenta pôr na balança os sentimentos opostos de vítimas e responsáveis pela ditadura, para encerrar o capítulo mais amargo de sua história recente.

O governo do socialista Ricardo Lagos prepara um plano que pretende dar uma solução global a dois temas que rondam a consciência dos chilenos, desde a volta da democracia, em 1990: reparações para quem sofreu violações aos direitos humanos e o futuro dos responsáveis por tais crimes.

– O governo está preparando uma proposta que possa representar justiça, verdade e reparação para as vítimas da violência política no Chile – disse a ministra da Defesa, Michelle Bachelet, em Santiago.

Para elaborar a proposta, o governo recebeu sugestões e todos os setores políticos, inclusive dos grupos de familiares de vítimas. Mas há um setor, protagonista na discussão, que não entregou uma proposta formal, apenas sinais de que também espera ajuda do governo: são os militares.

O desfile de ex-oficiais perante os tribunais é algo que preocupa aos comandantes, que desejam cicatrizar de vez a ferida antes de se aposentarem. Mais de 160 ex-integrantes das Forças Armadas estão sendo processados por crimes cometidos entre 1973 e 90, o que é visto nos círculos militares como um desafio da Justiça.

– Os militares consideram que a ação da Justiça, tal qual está, é um obstáculo á reconciliação – disse Oscar Godoy, cientista político da Universidade Católica. Quase metade dos militares processados é do Exército, área à qual pertencem 13 dos 14 condenados até agora.

O maior incômodo ás Forças Armadas é uma decisão judicial relativa aos desaparecidos da era Pinochet. Seus supostos responsáveis serão julgados por seqüestro, crime que não prescreve até que seja atestada a morte da vítima.