Chávez enfrenta greve geral na maior crise de seu governo desde tentativa de golpe

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Publicado terça-feira, 22 de outubro de 2002 as 01:51, por: cdb

Uma greve pedindo a renúncia do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, provocou o fechamento de muitas lojas, escolas, bancos e empresas nesta segunda-feira, mas o governo definiu o protesto como um fracasso e reiterou que não convocará eleições antecipadas.

O protesto, de 12 horas, reduziu as atividades econômicas em Caracas e em outras cidades, sem ter, contudo, demonstrado uma dimensão capaz de alterar o impasse político que tem dominado o quinto maior exportador de petróleo do mundo desde que Chávez sobreviveu a uma tentativa de golpe em abril.

A produção e a exportação de petróleo não foram afetadas pela paralisação, reduzindo seu impacto econômico, segundo autoridades de energia.

A oposição venezuelana ao anunciar na noite desta segunda-feira o fim da greve geral, divulgou uma declaração felicitando o povo da Venezuela pelo que definiu como uma “clara e contundente expressão de vontade cívica e democrática”.

“Hoje, ao final desta vitoriosa jornada, o governo está mais encurralado, só e desesperado do que nunca”, disse o presidente da Confederação dos Trabalhadores da Venezuela (CTV), Carlos Ortega.

Ortega acrescentou que o próximo passo “é prosseguir com o recolhimento de assinaturas e convocar a Assembléia Nacional para que se pronuncie sobre a convocação de um referendo que expresse a vontade popular sobre a presença do senhor Chávez Frías na Presidência da República.”

“Mantendo nossa presença nas ruas, no dia 4 de novembro entregaremos ao CNE (Conselho Nacional Eleitoral) as assinaturas necessárias para a realização de uma consulta popular (….) sobre a permanência ou não do atual governo”, disse Ortega.

Governo diz que greve fracassou
“A greve fracassou”, disse em pronunciamento por uma rede nacional de televisão e rádio a ministra do Trabalho, Maria Cristina Iglesias.

“O país não parou. Está andando”, disse também o vice-presidente venezuelano, José Vicente Rangel. Para ele, a adesão não passou dos 10 por cento.

Os efeitos da paralisação foram mais visíveis na região mais próspera de Caracas, cujas avenidas normalmente congestionadas ficaram vazias. Muitos supermercados, empresas, bancos, escolas, bares e restaurantes da cidade cerraram suas portas.

No centro e na parte oeste da cidade, mais pobres, e tradicionais baluartes do presidente, muitas lojas e negócios abriram as portas.

Aproximadamente 5.000 soldados e homens da Guarda Nacional patrulharam as ruas de Caracas para prevenir a violência. Alguns donos de lojas disseram que receberam ameaças de ativistas radicais pró-Chávez para abrirem suas portas.

O presidente da Fedecámaras, Carlos Fernández, minimizou as perdas econômicas trazidas pela greve e disse que problemas maiores ocorrem quando se fecha uma empresa atrás da outra, numa alusão à crise econômica. “Temos que parar para poder seguir. No dia 21 faremos este esforço para salvar a Venezuela, para que tenhamos mais a frente oportunidades para crescer e viver em harmonia”, enfatizou.

Uma outra frente da luta para derrubar Chávez é empreendida na Justiça. O ex-parlamentar Nelson Chitty acionou o Tribunal Supremo de Justiça acusando Chávez como responsável pelos atos violentos que culminaram com o golpe de 11 de abril, quando manifestantes que participavam da marcha contra o governo foram assassinadas no centro de Caracas.

O ex-deputado acusa Chávez de ser o responsável pela morte de Jesús Arellano, um dos que foram mortos a tiros no dia da marcha. “O governo deve ser responsabilizado pelo que ocorreu nesse dia. Sentimos que haviam ordens explícitas para parar a marcha e o que ocorreu todos já sabemos”.

Chávez aposta no fracasso da greve
Hugo Chávez, que passou parte da semana em viagem à Europa, declarou que a greve fracassará. Segundo ele, o movimento terá uma impacto limitado porque grandes setores da economia do país, como o petrolífero e o siderúrgico, não devem aderir em massa à paralisação.

Os dois setores são controlados por empresas