Chávez ameaça empresários com contra-ataque revolucionário

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Publicado segunda-feira, 10 de dezembro de 2001 as 23:40, por: cdb

No dia em que o empresariado da Venezuela fechou as portas ao governo Hugo Chávez, o presidente radicalizou e avisou aos opositores que, além de não estar disposto a dialogar, não aceitará novas manifestações como a desta segunda-feira, em que o protesto deu um ar de domingo ao país, em plena segunda-feira. “Não tenho nada que falar com os imorais. Não tenho que discutir imoralidades. Não vou sentar com a oligarquia para trair o povo”, discursou Chávez, paramentado com a farda de coronel, na solenidade de comemoração do aniversário da Força Aérea Venezuelana.

Chávez deixou claro ainda que está disposto a frear os protestos: “Me declaro em campanha para fazer chegar a lei aos que não aceitam a lei. Não aceitarei o motim, a chantagem.”

Vestido com o uniforme de campanha e boina vermelha, endureceu em discurso para os camponeses na Praça Caracas, com nova ameaça: “A partir de hoje, novos acontecimentos ocorrerão na Venezuela. Não vamos aceitar que se confunda democracia com libertinagem.” “Querem o conflito? Terão o conflito. Vamos ao contra-ataque revolucionário”, insistiu o presidente.

Enquanto a Federação de Câmaras da Venezuela, Fedecámaras, pede a abertura de conversação para rever algumas das 49 medidas do governo que alteram profundamente a economia, Chávez tomou o caminho oposto: anunciou que enviará o mais rápido possível ao Congresso uma nova lei de comunicação e informação, que provavelmente criará sanções para os meios de comunicação, na maioria esmagadora contrários ao atual governo.

E ainda promulgou a Lei de Terras, a mais controversa das 49 mudanças. O presidente marcou para amanhã a promulgação da Lei de Pesca, outro ponto de discórdia entre governo e empresários. Em uma clara tentativa de demonstração de controle das Forças Armadas, Chávez transferiu para Caracas a solenidade de homenagem à aviação militar, comandou pessoalmente as tropas, condecorou altos oficiais e assistiu à apresentação de aviões de guerra, alguns pilotados por militares russos convidados pelo governo venezuelano.

A Fedecámaras, entretanto, comemorou o sucesso do movimento, calculando em mais de 90% a adesão ao Paro Cívico. Já às 8h30 da manhã, o presidente da instituições, Pedro Carmona, anunciava o “amplo êxito” do movimento. “Parece um primeiro de janeiro”, disse.

Para Carmona, a resistência do governo em dialogar com os empresários significará “o aumento das tensões daqui para frente”. “A Venezuela inteira paralisou suas atividades e é a evidência de que o país pede uma retificação de rumos, pede uma democracia participativa, em que todos sejamos atores”.

Com a radicalização de Chávez, a Assembléia Nacional, o parlamento venezuelano, será a alternativa para a tentativa de abrir um mínimo de conversação com a oposição. Chávez tem a maioria dos deputados e há os que defendem que sejam organizados encontros para ouvir os argumentos do empresariado e dos trabalhadores descontentes. O presidente, porém, não está disposto a dar sinal disposição para rever as 49 novas leis. Ao contrário, optou pela saída de reforçar o comando militar, e não só administrativo, do país.

A Fedecámaras, em princípio, resistiu a conversar com os parlamentares. Carmona, porém, parece ter mudado de opinião e afirmou que a Assembléia Nacional é “um canal importante de conversação”. Os empresários tentarão a anulação das 49 leis no Tribunal Supremo de Justiça, alegando que não foi respeitada a Constituição, uma vez que foi cerceado o direito à informação sobre as leis em discussão.