Chávez agradece “apoio patriótico” do Brasil

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Publicado domingo, 29 de dezembro de 2002 as 23:57, por: cdb

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, agradeceu ao presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, e ao presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, o que chamou de “ajuda patriótica” com um envio de um navio com 525 mil barris de gasolina brasileira.

O carregamento, da Petrobras, chegou no sábado à Venezuela, país que é o quinto maior produtor mundial de petróleo, mas que vive uma onda de escassez devido a uma greve geral que já dura 28 dias.

A paralisação, organizada por grupos da oposição e sindicatos, incluindo o dos petroleiros da estatal Petróleos de Venezuela SA (PDVSA), visa a forçar a renúncia de Chávez, que é acusado de tentar instalar uma ditadura comunista no país, e a convocação de eleições antecipadas.

“Eu quero agradecer de maneira especial (…) ao meu querido amigo Fernando Henrique Cardoso, o presidente brasileiro, pelo apoio, e os gestos de patriotismo e a preocupação do presidente eleito, meu companheiro e irmão, Luiz Inácio Lula da Silva”, declarou Chávez, na refinaria de Guaraguao, 220 quilômetros a oeste de Caracas.

O presidente venezuelano também reconheceu o gesto do Governo de Trinidad e Tobago pelo envio “dentro de dois dias de um navio com 300 mil barris de gasolina”.

Chávez elogiou também os governos de Cuba, Curaçao, República Dominicana e Rússia pela assistência técnica e de insumos oferecida.

“Os povos do mundo unidos com a Venezuela”, disse. “Obrigado, irmãos”.

Críticas da oposição ao Brasil
A chegada do navio brasileiro “Amazon Explorer” ao porto de La Cruz, no oeste venezuelano, foi duramente criticada pela oposição, que acusou Lula de retribuir “favores políticos” de Chávez.

Horácio Medina, porta-voz dos grevistas na PDVSA, disse que a ajuda brasileira servirá apenas para abastecer por dois dias o mercado interno de combustíveis, que necessitaria de 250 mil barris por dia.

A escassez de combustíveis desatou um mercado clandestino, em que os venezuelanos pagam até 1,07 dólar por litro, em comparação com 0,05 dólar que normalmente desembolsavam pelo litro de fórmulas mais baratas de gasolina disponíveis no mercado.

Jornalistas que cobrem a greve para emissoras de rádio e de televisão informaram sobre motoristas indignados que vêm bloqueando ruas e estradas perto de Caracas e no interior, em protesto contra a falta de combustíveis.

Analistas políticos e observadores acreditam que a crise de desabastecimento, num país acostumado à fartura de petróleo, poderia exaltar ainda mais os já acirrados ânimos numa nação radicalmente polarizada em relação a Chávez e a seu projeto “revolucionário”.

Os analistas coincidem em advertir sobre a possibilidade de uma explosão social e de enfrentamentos violentos entre “chavistas” e “antichavistas”.

O embaixador dos Estados Unidos em Caracas, Charles Shapiro, cujo país recomendou a saída de seus cidadãos da Venezuela, disse na sexta-feira que a cada dia vê mais risco de violência.

“Vejo mais possibilidade de violência nas ruas, de violência de lado a lado”, acrescentou.

O Governo e a oposição não têm conseguido chegar a uma saída eleitoral para a profunda crise política, apesar de estarem, há mais de sete semanas, sentados a uma “Mesa de Negociação e Acordos”, sob os auspícios do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), César Gaviria.