Cenário é desolador na Terra dos Poetas

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sábado, 26 de junho de 2010 as 14:08, por: cdb

Mais de dois séculos da história e da cultura pernambucanas se perderam em meio à cheia do Rio Una, provocada pela forte chuva do fim de semana passado. A enchente devastou o município de Palmares, conhecido como a Terra dos Poetas e dono do primeiro teatro do interior do Estado.

A força da água destruiu a prefeitura, casas, um cinema e pontes, além de danificar a estrutura de um templo centenário. Só restaram a dor, o desespero e a sensação de desamparo entre os 56 mil habitantes da cidade – terceira mais antiga do estado e distante 105 quilômetros da capital Recife.

Foi a maior enchente da história de Palmares, segundo os moradores.

– Essa enchente não vai mais ser esquecida pelos palmarenses. Até parecia um terremoto –, disse o radialista José Alberto Passos da Silva. Ele perdeu a casa localizada a 200 metros da beira do rio, o carro e documentos.

– Fique só com a roupa do corpo.

Passos e mais sete pessoas da família estão abrigados na casa de um parente, na parte alta da cidade.

– Não deu tempo de tirar nada, a água veio como tromba d’água. Nós esperávamos que o rio subisse de maneira mais lenta, quando anoiteceu aumentou a velocidade –, relatou esse pernambucano de fala rápida e grave, estatura baixa e de cabelos escuros.

– “Diante de tudo isso, fico alegre porque ainda estamos vivos.

O radialista também descreveu o cenário desolador do centro da cidade.

– Em frente à prefeitura, abriu uma cratera de mais de dez metros de profundidade. Lá está uma carreta que foi arrastada do outro lado do rio pela força da água.

Segundo ele, o templo de uma igreja presbiteriana de mais de 100 anos também ficou com a estrutura comprometida.

Teresa Cristina Aragão é dona de uma farmácia que ficou completamente destruída. A água chegou ao teto e estragou todos os medicamentos. Segundo ela, ninguém da família morreu, mas os filhos, que moram em Recife e Maceió, ficaram em “pânico” quando acompanharam pela internet a notícia das inundações na noite de sexta-feira da semana passada.

– Nossos celulares não funcionavam e a falta de energia nos deixou sem internet. Pela manhã, as coisas se acalmaram quando conseguimos dar notícias e soubemos que estavam todos bem. Não sei o que será desse povo, do comércio e de toda uma população que foi tragicamente atingida pelas águas que inundaram nossos lares. Quanto às ruas, continuam podres e enlameadas, sem água nas torneiras –, afirmou.

De acordo com Teresa Cristina, a cidade, que sobrevive do plantio de cana de açúcar, não recebia atenção dos governantes há muito tempo.

– Já estávamos a ver navios antes das enchentes. Sem indústrias, sem fábricas, sem uma voz forte que clamasse por melhorias na Terra dos Poetas. As usinas da região davam o sustento aos trabalhadores da Zona da Mata de Pernambuco.

Mesmo sofrendo como os outros palmarenses que perderam casas e objetos pessoais, a comerciante começou uma campanha para arrecadar doações para os conterrâneos em sua página pessoal na internet. Neste sábado, ela recebeu roupas e alimentos arrecadados por familiares e amigos de Recife.

– As pessoas estão sobrevivendo de donativos que chegam sem parar. Eu estou engajada nessa solidariedade e fiz da casa em que estou alojada um campo de S.O.S., pedindo doações e ajudando a matar a fome dos desesperados.

O município recebeu o nome de Palmares em homenagem ao Quilombo dos Palmares, localizado em Alagoas. A cidade começou a se desenvolver a partir de 1862, com a chegada dos trilhos da estrada de ferro no Sul de Pernambuco. Em 1879, deixou de ser comarca e passou a município.

Palmares ganhou o nome de Terra dos Poetas porque lá nasceram grandes nomes da literatura brasileira, como o poeta modernista Ascenso Ferreiro e os escritores Hermilo Borba Filho e Jayme Griz. Outros palmarenses ilustres são os artistas plásticos Darel Valença Lins e Murilo La Greca.

Jayme Griz (morto em 1981) foi quem mais escreveu sobre a chuva que constantemente cai sobre a região: “De repente / Chuva / Chuva / Chuva / Chuva / Chuva / Chuva de danar a paciência! / Chuva de sapo pedir aos céus clemência! /Mãe Natura endoideceu/ E se ela, / que é mãe, / que é sábia, / que é única, / a cabeça perdeu/ quanto mais eu/ quanto mais eu.”