Cavallo volta à cena e insiste em culpar o Brasil pela crise do peso

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Publicado quinta-feira, 27 de dezembro de 2001 as 17:32, por: cdb

O ex-ministro Domingo Cavallo falou à imprensa pela primeira vez desde que abandonou o comando da economia argentina, na semana passada. E novamente atribuiu ao Brasil a culpa dos males de seu país. Em entrevista ao canal de TV Todo Noticias, Cavallo aconselhou o novo governo a negociar com o Brasil um mecanismo de compensação pelos prejuízos causados aos produtores argentinos pela desvalorização do real.

A diferença de câmbio – entre o real desvalorizado e o peso, que está atrelado ao dólar americano – beneficia os exportadores brasileiros e prejudica os produtores argentinos, que perdem em competitividade. Mas, apesar de Cavallo insistir sempre na mesma tese, o comércio entre a Argentina e seus três sócios do Mercosul (Brasil, Paraguai e Uruguai) não está na lista de prioridades do novo governo. O ex-ministro também pediu desculpas à população pelo fim desastroso da sua gestão.

A principal preocupação do presidente Adolfo Rodríguez Saá, neste momento, é controlar a explosão social, que resultou na morte de quase 30 pessoas, na renúncia de Cavallo e na queda de todo o governo de Fernando De la Rúa. Já o ex-ministro da economia argentina havia sido visto pela última vez na quarta-feira da semana passada, quando milhares de argentinos começaram a saquear supermercados e lojas em todo o país. Após uma semana, ele contou que naquele dia deixou o cargo à disposição do presidente e foi para casa, onde uma multidão cercava seu prédio, pedindo a sua demissão.

Sem esperar pela decisão de De la Rúa, Cavallo renunciou e fugiu com a família numa caminhonete. Foi para o sítio de um amigo e, de lá, para o sul da Argentina. A Justiça proibiu que o ex-ministro saísse do país antes de prestar depoimento. Ele está sendo investigado pelo seu suposto envolvimento num escândalo de contrabando de pólvora, que surgiu durante o governo de Carlos Menem. “Não quero sair do país”, disse Cavallo. Mas ele afirmou que quer ter liberdade de movimento.

Conhecido por ter pavio curto, o ex-ministro manteve a serenidade, mesmo quando lhe perguntaram se tinha consciência de que não poderia colocar o pé na rua sem ser xingado. “Quem disse que eu não posso andar na rua?”, perguntou. “Se as pessoas me criticam, esse é um problema meu e de meus advogados.”

Ele evitou falar sobre o passado, mas pediu desculpas ao povo argentino pelo violento desfecho de sua gestão. Ele ainda atribuiu o fracasso de De la Rúa à falta de apoio de seu próprio partido – a União Cívica Radical (UCR).

Domingo Cavallo elogiou o novo presidente da Argentina, Adolfo Rodriguez Saá, e a sua decisão de criar o “argentino”, que circulará a partir de janeiro e, em princípio, terá o mesmo valor que o peso e o dólar. Mas não será conversível. Ou seja, não poderá ser trocada em bancos e casas de câmbio. O ex-ministro afirmou ainda que a manutenção da conversibilidade (regime que ele criou em 1991, atrelando o peso ao dólar) foi a melhor decisão do novo governo. Ele afirmou que a introdução da nova moeda não afetará o sistema.

O importante, disse Cavallo, é que o argentino não perca seu valor como aconteceu com o real. O ex-ministro insistiu que a desvalorização da moeda brasileira foi “trágica” para a Argentina. Segundo ele, esse foi o estopim da crise em seu país, porque levou os mercados a desconfiarem da estabilidade do peso. “O novo governo”, disse, “deveria insistir com o Brasil em rever as regras de livre comércio entre os países do Mercosul. E deveria aplicar às importações brasileiras as mesmas tarifas aplicadas a terceiros países”.

Cavallo defendeu abertamente a revisão do Mercosul desde que assumiu o Ministério da Economia, em 20 de março. Em seu sexto livro, Pasión por Crear (Paixão por Criar), ele propôs reduzir o status do Mercosul de união aduaneira para zona de livre comércio. Segundo Cavallo, o bloco deveria eliminar a Tarifa Externa Comum (TEC), que adota para importações de terceiros países. E a Argentina deveria buscar uma maior aproximação dos Estados Un