Casa da sogra

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Publicado sexta-feira, 20 de abril de 2012 as 11:20, por: cdb

Sábado, 28 de abril, comemora-se, no Brasil, o Dia da Sogra.O calendário de efemérides está repleto de dias consagrados a quase todos osgalhos da árvore genealógica. Predomina, por razões óbvias, o Dia das Mães. Mãetodos temos, com certeza.

O Dia da Sogra deve ter sido incluído por proposta de algumpolítico corrupto que, tendo escutado ofensas óbvias à sua progenitora, decidiuhomenagear a mãe de sua mulher. Ou de suas mulheres, embora o calendáriosingularize (sogra) o que pluraliza na efeméride de maio (mães).

Sogras padecem no anedotário. “Feliz foi Adão que não tevesogra, nem caminhão”, li no para-choque de uma jamanta na Via Dutra. Cincocoisas que ninguém jamais viu: cabeça de bacalhau; mendigo careca; ex-corrupto;santo de óculos; e retrato de sogra na sala.

Faz-se de um lugar ou ambiente “casa da sogra” quando alguémse julga no direito de abusar da hospitalidade de parentes ou amigos. Na casada sogra tudo é permitido, até a má educação e a falta de higiene.

A cascata de escândalos do caso Carlinhos Cachoeira, comperdão da redundância, projeta o Brasil como a própria casa da sogra. Muitospolíticos – há exceções, felizmente – adotam três discursos: o eleitoral, dacaptação de votos; o partidário, das articulações de bastidores; e osalafrário, para amealhar dinheiro e poder.

Inúmeros empresários e comerciantes se queixam de que, noBrasil, não se vence licitações nem se obtém recurso público sem “molhar” a mãode políticos e funcionários do governo. A prática já está incorporada àsnegociações entre empresas privadas ou pessoas e agentes públicos. Amigo meu,ao ver sua moto recuperada pela polícia, se espantou com a lisura doinvestigador, que não lhe pediu nem um centavo.

Raros os políticos brasileiros que vieram de berçoesplêndido. E todos sabem quão cara é uma campanha eleitoral. Essavulnerabilidade é a porta de entrada dos corruptores, em geral travestidos delobistas. Aproximam-se do político e se tornam facilitadores de suas vontades enecessidades: empregos aos parentes; viagens em jatinhos; férias em locaisparadisíacos; presentes caros etc.

Na primeira fase, o corruptor nada pede, apenas oferece.Demonstra um desprendimento e dedicação ao político de fazer inveja a madreTeresa de Calcutá. Essa aproximação, que socialmente faz o político passar daclasse econômica à executiva, introduzido aos prazeres privativos do mundo dosricos, cria vínculos de amizade.

A segunda fase se inicia quando o político se sente naobrigação de ser grato ao amigo. Em que posso ajudá-lo? Ora, o amigo tem seus amigos:as empresas que o abastecem de recursos para abrir caminhos na intrincadaburocracia da floresta governamental. Começam então as facilitações obtidaspelo político: licitações fajutas; informações privilegiadas; nomeaçõesconvenientes; tráfico de influência etc.

A terceira fase da transformação do exercício de um mandatopopular em casa da sogra é o caixa de campanha. O político não pode perdereleição. E para ganhá-la precisa de visibilidade (poucos a alcançam) e dinheiro(imprescindível). Criam-se o caixa um, legal, declarado à Justiça Eleitoral, eo caixa dois, por baixo dos panos, abastecido pelo amigo lobista e outras viasescusas.

É possível acabar com a corrupção? No coração humano,anabolizado por ambições desmedidas, jamais. Há, contudo, antídotos objetivos:financiamento público das campanhas eleitorais; controle da administraçãopública pela sociedade civil; ficha limpa também quanto ao patrimônio familiaracumulado; apurações rápidas e punições rigorosas aos corruptos.

Isso depende de reforma política, que o governo e oCongresso tanto protelam. Enquanto perdurar o atual sistema político,contaminado por 21 anos de ditadura militar, como a isonomia de representaçõesestaduais no Senado, os ratos da corrupção haverão de trafegar à vontade pelosburacos do queijo suíço das maracutaias.

O Brasil deixará de ser a casa da sogra quando nossaindignação se converter em mobilização e proposta.

[Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do Ouro”(Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org- Twitter:@freibetto.
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