Carlos Pronzato: Os Brinquedos do Pinheirinho

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 1 de março de 2012 as 11:38, por: cdb

Para Natalia de Carlos Pronzato


Pinheirinho
Teus brinquedos no meio dos escombros
Poderão ser recolhidos por alguém
Ou esmagados novamente
Pelas retroescavadeiras
Que destruíram tuas casas
Quando prepararem o terreno
Da especulação imobiliária
Em cima de oito anos de labuta diária

Mas embora os levem
Ou os destruam novamente
Continuarão ali sempre
Com seu eterno gesto
De brinquedos
Estáticos
Solitários
Silenciosos
Aguardando por seus donos
Nesse cantinho de terra conquistada
Onde foram fuzilados
Por homens obedientes
De coração fardado

Continuarão ali De pano
De madeira
De plástico
Bonecas
Carrinhos
Super-heróis
Com seus poderes anulados
Os rostos esmagados

Sem rodas
Sem vestes
Sem asas
Sem pernas
Com seu sangue infantil
Derramado
Entre flores arrancadas
E tijolos quebrados

Na poeira que restou do bairro
– Dizem que até o céu Fugiu dali
No meio dos disparos Só há dores
E pedaços familiares
Em fotografias arrombadas
Assembleias populares
E faixas amassadas
De um sonho inacabado

Mas há também
Entre madeiras ainda fumegantes
Cadernos escolares
Bíblias chamuscadas
E cinzas de palavras
Pairando silenciosas sobre a tarde
Brinquedos pisoteados
Pelas botas militares
Espalhados
Em mais de um milhão
De metros quadrados
Com seus olhos bem abertos
Fixos
E assombrados
Pelas sombras gigantescas dos soldados
Ainda imaginando que as bombas

E os gases
Eram mais um jogo das crianças
Uma brincadeira diferente
Num domingo nublado
– se bem que pelo horário
Seis horas da manhã
Algo deveria estar errado –

Pinheirinho
Foi arrasado
E nem o riso transparente
Das crianças
Estampado em milhares de brinquedos
Foi poupado
Tamanha foi a sanha Contra a luta
Pela moradia
Da Justiça corrupta do Estado

Sanha antiga
Alimentada diariamente
Com o suor e o sangue
Dos construtores das cidades
Que armados de coragem
Capacetes
Escudos improvisados de plástico
Paus e facões enferrujados
– quase brinquedos de criança
Frente à máquina de morte Do Estado –
Atreveram-se a enfrentá-la.

*Carlos Pronzato é cineasta.

 

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