Carlos Alberto Torres, o “bombeiro dos clubes”, abre fogo

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Publicado quarta-feira, 11 de dezembro de 2002 as 14:34, por: cdb

Se tem uma jogada capaz de simbolizar a categoria do futebol pentacampeão mundial ao longo dos anos, certamente ela aconteceu na inesquecível Copa de 70. As imagens já tinham cores e movimento no dia 21 de junho daquele ano. Mais de 100 mil pessoas lotavam o tradicional estádio Azteca, na Cidade do México, para acompanhar a decisão do Mundial entre Brasil e Itália. Faltando quatro minutos para o fim do jogo, Clodoaldo finta alguns adversários e toca a bola para Rivelino, que estica um passe até Jairzinho. O “Furacão” passa a bola para Pelé, que, sem olhar para o lado, dá um leve toque. Carlos Alberto vem de trás pela direita e solta uma bomba cruzada fechando o placar em 4 a 1. Uma bola que passou pela metade do time até os pés do elegante capitão, que levantou a Taça Jules Rimet. A partir daquele dia, o lateral e capitão do time, Carlos Alberto Torres, seria conhecido como o Capita do Tri.

Aos 58 anos, Torres ainda apresenta a personalidade forte que lhe rendeu o apelido e o levou a muitas conquistas como jogador e como treinador, pelo Fluminense, Flamengo, Santos e Botafogo. Sincero, polêmico e com um otimismo contagiante, o Capita hoje é conhecido como ”bombeiro dos clubes do Rio”. Já tirou o Flamengo e Botafogo do rebaixamento pelo menos uma vez, mas nesse campeonato não conseguiu livrar o Alvinegro da Segundona, comandando a equipe nos últimos três jogos. Em entrevista exclusiva ao Correio Regional, Torres enfatiza a necessidade de mudanças no comando apontando essa como a única solução para a crise dos clubes cariocas.

– Na minha opinião tem que haver uma faxina geral no futebol do Rio, gente nova e capaz de mudar isso, todo ano com algum clube brigando para não ser rebaixado não dá. Mas é só olhar para trás. Quem foi o campeão carioca? Tivemos um Estadual sem o mínimo de dignidade, mal organizado pelo Caixa D’água (Eduardo Vianna, presidente da Federação do Rio)- dispara afiado.

Torres não tem mesmo papas na língua. Dias antes de ser convidado pelo presidente do Botafogo, Mauro Ney Palmeiro, para tentar salvar o time, atacou a atual diretoria e declarou que Bebeto de Freitas, então candidato, era a única esperança do clube da estrela solitária. Ao assumir o time não retirou uma palavra do que dissera anteriormente. Com firmeza, deposita ainda mais confiança ‘nas novas idéias de gente séria ligada ao esporte como o Bebeto de Freitas’.

– Esses dirigentes que estão chegam numa empresa para negociar patrocínio e o empresário fecha a porta, eles estão queimados. É importante que seja alguém do esporte na direção. Se colocarem um jogador de futebol para comandar um banco ele quebra. Pois esses caras querem administrar os clubes. Aí você vê o que acontece- exemplifica .

A preocupação de Carlos Alberto Torres aumenta quando, segundo ele, alguns clubes mudam de presidente sem que haja uma transformação política significativa. Com dinheiro a receber do Botafogo- ainda da passagem anterior pelo clube-, e do Flamengo, o Capita fica revoltado e engatilha a metralhadora ao comentar as declarações do presidente recém eleito no Rubro-Negro, o empresário Hélio Ferraz, que afirma que não vai pagar as dívidas com os treinadores que passaram pelo clube porque não tem dinheiro.

– O Hélio (Ferraz) disse que não vai pagar ninguém. Isso é sacanagem! E o que está escrito? Aí não adianta mudar o presidente, até porque no caso do Flamengo quem está por trás é o Márcio Braga e o Kléber Leite, os mesmos que colocaram o clube na situação atual. Não muda nada.

O Capita, por sinal, não acha que a incompetência administrativa não é uma peculiaridade do futebol do Rio e sim um fenômenos nacional. A queda do Palmeiras e a presença de times tradicionais do sul, como o Internacional, na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro mostram, para ele, que há uma divisão do futebol brasileiro em três partes distintas. A primeira seria a vitoriosa Seleção Brasileira, incontestavelmente acima das demais. A segunda representaria o