Campanha de Perillo foi financiada pelo crime organizado, diz relator da CPMI

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Publicado quarta-feira, 27 de junho de 2012 as 21:13, por: cdb

Campanha de Perillo foi financiada pelo crime organizado, diz relator da CPMI Parte da campanha eleitoral do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), foi financiada com dinheiro de caixa 2, proveniente de empresas fantasmas ligadas à organização de Carlinhos Cachoeira, disse o relator da CPMI do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), ao final do depoimento do jornalista Luiz Carlos Bordoni. O jornalista, que foi filiado ao PSDB e trabalhou nas quatro últimas campanhas de Perillo, afirmou que o pagamento via caixa 2 foi prática recorrente.

Najla Passos

Brasília – Parte da campanha eleitoral do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), foi financiada com dinheiro de caixa 2, proveniente de empresas fantasmas ligadas à organização criminosa de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, disse o relator da CPMI do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), nesta quarta (27), ao final do depoimento do jornalista Luiz Carlos Bordoni, que durou cerca de 8 horas. “Após o depoimento, fica evidente que a campanha do Perillo foi financiada com dinheiro do crime organizado. E isso será investigado por nós”, afirmou.

Reconhecido como “a voz de Perillo no rádio”, Bordoni foi filiado ao PSDB e, há 14 anos, trabalha ininterruptamente nas campanhas do tucano. À CPMI, ele disse que recebeu parte do pagamento referente à campanha de 2010 em dinheiro, sem emitir nota ou recibo, e outra parte por meio de depósitos bancários efetuados pelas empresas Adécio & Rafael e Alberto & Pantoja, ambas ligadas ao esquema de Cachoeira. No caso da última, a transferência foi efetivada para a conta de sua filha, Bruna Bordoni, e já foi identificada pela CPMI, após a quebra dos sigilos da empresa de fachada.

O jornalista, que admitiu não ter declarado os valores pagos por caixa 2 à Receita Federal, relatou que recebeu uma parcela inicial de R$ 40 mil das mãos do próprio Perillo. A segunda, de R$ 30 mil, teria sido paga por meio da empresa Arte Mídia, que emitiu nota fiscal. A terceira, de R$ 10 mil, lhe teria sido repassada em dinheiro vivo, por Jayme Rincón, assessor de Perillo. A quarta, de R$ 45 mil, teria sido depositada em sua conta bancária pela Adécio & Rafael. E a última, também de R$ 45 mil, teria sido depositada na conta da filha, pela Alberto & Pantoja.

No seu depoimento à CPMI, o governador Perillo afirmou que pagou Bordoni em uma única parcela, de R$ 30 mil, comprovada pela nota fiscal emitida pela Arte Mídia. “Ele mentiu”, retrucou o jornalista, desafiando-o para uma acareação na CPMI e colocando seus sigilos à disposição dos parlamentares. “É claro que a testemunha não é a melhor das provas. Mas Bordoni não trabalhou de graça. E não cobrou apenas os R$ 30 mil reconhecidos por Perillo, porque este é um serviço caro. Pode ser até que tenha cobrado mais”, avaliou o deputado Cândido Vacarezza (PT-SP).

O jornalista disse que decidiu denunciar Perillo após tomar conhecimento de que a CPMI tinha descoberto que o dinheiro depositado na conta da sua filha era proveniente de uma empresa fantasma ligada a uma organização criminosa. “Fiquei indignado. Como eu poderia explicar um dinheiro desta procedência?“, justificou. Ele relatou que não mantinha nenhuma relação com Cachoeira e que só tomou conhecimento sobre a abrangência das suas atividades criminosas após a divulgação, pela imprensa, dos resultados das operações Monte Carlo e Vegas, da Polícia Federal. “Eu me considerava amigo do Perillo”.

Ao final do depoimento, Bordoni admitiu à Carta Maior que recebeu via caixa 2 em pelo menos outras duas campanhas eleitorais de atual governador de Goiás. “Também recebi parte do dinheiro ‘por fora’ em 2002 e 2006. Em outros momentos, recebi por meio de empresas, como foi o caso da campanha para o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), de 2008”, disse ele, alegando não se lembrar precisamente dos valores.
Desqualificação da testemunha

Parlamentares do PSDB enfrentaram as denúncias contra o governador do partido armados de inúmeras acusações contra Bordoni. A tática foi a desqualificação da testemunha a qualquer preço. Relataram que o jornalista já foi condenado criminalmente a 12 anos de prisão e que sonegou impostos. “A condenação foi suspensa porque o crime prescreveu. E fui condenado justamente por trabalhos que fiz para defender o Perillo. Quanto à sonegação dos impostos do dinheiro recebido em campanha e não declarado, estou admitindo publicamente”.

O senador Álvaro Dias (PSDB-SP) chegou a questioná-lo sobre uma possível entrevista que ele teria dado a um blog, relatando que fora abduzido por um objeto voador não identificado. “O relato faz parte de um livro que irei publicar, intitulado ‘Terrestre Extra’, no qual me imagino em uma nave espacial analisando a vida aqui na terra. É uma obra de ficção”, explicou.

O deputado Carlos Sampaio (PSDB) criticou a presidência da CPMI por “perder tempo” inquirindo uma testemunha “desqualificada” como Bordoni, com um passado criminal comprovado. Segundo ele, os depoentes deveriam ser o presidente da Delta, Fernando Cavendish, e o ex-diretor do DNIT, Luiz Antônio Pagot. Questionado se ele atestaria a idoneidade dessas duas outras testemunhas, mudou o foco.

Bordoni respondeu também as denúncias veiculadas pela revista Veja, na última semana, que o acusam de ter chantageado Cachoeira. Segundo ele, essa tese só foi fabricada para justificar os depósitos feitos pelas empresas da organização criminosa na sua conta bancária e na da sua filha. “É mais uma estratégia para tentar me desqualificar”, argumentou.

A deputada Irís de Araújo (PMDB-GO), disse que conhece Bordoni há anos e, embora sempre tenham atuado em lados opostos, nunca ouviu nada que desabonasse sua conduta como profissional ou pessoa.

“Ele prestou serviço ao governador em todas as suas campanhas eleitorais até hoje. São 14 anos de convivência entre eles. Nunca as críticas foram levantadas. Nunca se buscou desqualificar a imagem de Bordoni. E, agora, que ele faz uma denúncia grave de caixa 2 de campanha com recursos de crime organizado, ocorre isso”, observou o relator.