Caça ao serial killer cria um novo tipo de reality show

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 22 de outubro de 2002 as 01:12, por: cdb

Uma churrascaria Ponderosa em Ashland, Virginia, é onde a investigação da polícia sobre o serial killer e a investigação particular conduzida pela televisão se cruzam.

“Nós não queremos falar com vocês”, disse o chefe Charles A. Moose do Departamento de Polícia de Montgomery diante uma dúzia de câmeras de televisão na noite do último domingo, depois de revelar que uma mensagem havia sido deixada no restaurante. “Liguem para o número fornecido. Obrigado”.

Moose, que comanda a força-tarefa da investigação, não explicou suas misteriosas palavras. Ele meramente pediu para a televisão transmitir sua mensagem “claramente”, sempre que possível.

Ao fazer isso, ele inaugurou um novo episódio no reality show interativo da TV que está emocionando o país. Se a saturada cobertura dos eventos do dia 11 de setembro mudaram a forma com que a televisão reporta uma crise, os criminologistas e especialistas de TV dizem que o caso do serial killer mostra como a televisão alterou a forma com que as autoridades federais investigam uma crise.

Principalmente, em uma visão superficial, através de um arranjo simbólico com as notícias da televisão. A TV agora pode trazer um foco instantâneo, extenso e repetitivo a qualquer evento calamitoso; a polícia aprendeu a usar a atenção em sua própria vantagem. Como os investigadores que buscavam pistas de crianças desaparecidas durante o verão passado, a polícia em Maryland e na Virginia recrutou a mídia para buscar pistas, tentando assegurar o público, e agora, enviar mensagens.

“A polícia sempre buscou pistas das testemunhas e do público, mas a escala deste caso é algo enorme”, disse Eli B. Silverman, professor de estudos de polícia da Faculdade de Justiça Criminal John Jay em Nova York. “Houve uma progressão constante de Son of Sam até o caso O.J. Simpson, mas o 11 de setembro foi como um salto no processo”.

Desde o dia 2 de outubro, 12 pessoas foram atingidas, nove delas fatalmente, por um franco-atirador. Os investigadores disseram no último domingo que não tinham certeza se o último incidente era parte do plano que vinha aterrorizando a região de Washington há quase três semanas, mas a polícia e a mídia estão agindo como se fosse.

A história do serial killer deu às redes de notícias a cabo alguns dos mais altos índices de audiência do ano, alimentando a fome de informações novas e aumentando a pressão sobre as autoridades federais.

No último domingo, o xerife V. Stuart Cook do município de Hanover, Virginia, tentou dispersar as críticas de que a polícia tinha sido muito sociável, acusações que levaram Moose a reduzir suas aparições diante das câmeras. Em uma coletiva ao vivo, Cook se recusou a identificar o homem atingido na churrascaria, dizendo que iria apenas “divulgar as informações que ajudarão vocês a nos ajudarem”.

Horas depois de o homem ser atingido, entretanto, outros oficiais do FBI estavam fornecendo novos dados sobre o caso, e as estações locais estavam fornecendo um número do FBI para as pessoas darem pistas. Na noite do último sábado, motoristas de toda a região de Washington estavam sendo parados em bloqueios enquanto os policiais procuravam caminhonetes – alguns usavam lanternas, outros confiavam nas luzes das câmeras de TV dando zoom em bagagens e estepes.

Algumas vezes a intensa cobertura da televisão é positiva para os investigadores. Ela levou os funcionários de uma locadora de carros de um aeroporto, por exemplo, a alertar a polícia sobre um projétil de bala encontrado em uma caminhonete que parece o veículo branco procurado no caso. Quando a polícia disse que não podia confiar no relato de um homem que disse ter testemunhado o assassinato de uma mulher na loja Home Depot em Falls Church, Virginia, essa relação foi abalada.

As reportagens da mídia questionam os métodos de investigação da polícia. A polícia culpa a mídia pelas dificuldades que surgem ao conduzir uma investigação ao vivo pela televisão, incluindo falsas pistas e tudo mais.