Bush coloca em risco a segurança dos EUA e do mundo

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Publicado terça-feira, 4 de setembro de 2001 as 14:54, por: cdb

O cientista político James Rubin, ex-porta-voz do Departamento de Estado americano na gestão de Bill Clinton, afirma que “os erros” do presidente George W. Bush estão pondo em risco o futuro da segurança do país.

Segundo ele, a insistência de Bush em construir um sistema de defesa contra mísseis balísticos também está prejudicando as relações entre os Estados Unidos e os seus aliados ao redor do mundo.

Em entrevista exclusiva ao programa De Olho no Mundo, uma co-produção da BBC Brasil e da rádio Eldorado de São Paulo, Rubin também afirmou que a desaceleração da economia americana deverá atrasar as negociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

Leia a seguir a íntegra da entrevista com James Rubin.

BBC – Qual é a diferença entre a administração de George W.Bush e a de Bill Clinton no comando da política externa do Estados Unidos.

James Rubin – A principal diferença é a teimosia de Bush, que insiste em construir um sistema nacional de defesa contra ataques de mísseis balísticos. O presidente Clinton também estava interessado nisso, mas Bush está determinado e quer fazer isso o mais rápido possível, mesmo que tenha que rasgar o tratado entre os Estados Unidos e a Rússia que proíbe a construção do sistema anti-mísseis.

BBC – Desde que Bush chegou à Casa Branca, no início deste ano, os Estados Unidos não esconderam sua oposição a uma série de tratados e protocolos internacionais. Quais podem ser as conseqüências dessa postura americana que muitos classificam de unilateral e isolacionista?

Rubin – A reputação dos Estados Unidos no mundo está sofrendo por causa da impressão de que a nova administração não está considerando as posições de seus parceiros e aliados. A imagem dos Estados Unidos sempre foi positiva para muita gente, mas pode se transformar em negativa muito facilmente devido ao fato de os Estados Unidos serem a única potência no mundo.

É preciso ouvir os aliados. E isso significa muito mais do que ir às reuniões e dizer que está consultando os aliados. É preciso entender que essa oposição pode causar danos de longo prazo para os interesses de segurança dos Estados Unidos. A administração de Bush parece fazer pouco caso do perigo que os Estados Unidos correm ao se opor continuamente aos outros países do mundo.

BBC – Mas, afinal, que perigos são esses que os Estados Unidos correm e que parecem não assustar George W. Bush?

Rubin – Por exemplo: a adminstração Bush deixou clara sua oposição a um grande número de tratados internacionais, como o Protocolo de Kyoto sobre o meio ambiente, o Tratado Anti-Mísseis Balísticos na área de defesa e o tratado contra armas biológicas. O problema é que quando você discorda com tanta freqüência e se transforma no obstáculo para a ação internacional, a próxima vez que uma crise surgir, talvez seja mais difícil conseguir que seu aliados o apóiem em uma ação conjunta.

BBC – Durante a guerra de Kosovo, os Estados Unidos de Bill Clinton deram total apoio à intervenção da Otan. Não se vê o mesmo empenho agora que mais um conflito ameaça virar guerra nos Bálcãs. Será que o receio dos Estados Unidos de George W. Bush em intervir na Macedônia pode comprometer o sucesso da operação da Otan no país?

Rubin, nos tempos de porta-voz do Departamento de Estado
Rubin – Eu fico preocupado com o fato de que a nova administração esteja com tanto medo de se envolver no Bálcãs, que tenha deixado o trabalho para autoridades americanas de segundo escalão e que a participação americana seja tão pequena. Esse medo de compromisso é um grande erro.

Os Estados Unidos são um país com uma reputação e um poder especial nos Bálcãs. Sérvios na Bósnia e albaneses na Macedônia veneram os Estados Unidos por tudo o que os americanos fizeram por eles em Kosovo. Por isso, sem a participação dos Estados Unidos, eu temo que essa missão seja apenas uma operação tapa-buraco e que, após os 30 dias, exista uma situação melhor, mas não será uma melhora durável.

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