Brasileiros escondem R$ 500 milhões em moedas

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Publicado domingo, 2 de fevereiro de 2003 as 20:50, por: cdb

O brasileiro mantém guardado em cofrinhos, no bolso ou num canto qualquer da casa mais da metade das moedas de real cunhadas desde 1994. Foram 46 moedas para cada brasileiro, num total de quase 8 bilhões de moedinhas, que valem R$ 1 bilhão. Destas, mais de 20 moedas por habitante estão fora de circulação (cerca de R$ 500 milhões), emperrando o comércio e tornando crônica a falta de troco. Uma escassez que leva diariamente bancos e grandes empresas a baterem na porta do diretor do Meio Circulante do Banco Central do Brasil (BC), José dos Santos Barbosa, pedindo uma solução, ou seja, mais moedas.

Barbosa disse ao Estado que, este ano, vai encomendar à Casa da Moeda 1,5 bilhão de novas moedinhas, de diferentes valores, mas pede, encarecidamente, aos brasileiros que “colaborem e coloquem as suas moedas para circular”. Para o apelo não cair no vazio, o Banco Central já encomendou à agência de publicidade Giovanni, FCB campanha para estimular a circulação das moedas, especialmente as de R$ 0,01 e R$ 0,05.

O contador Barbosa, diretor do Meio Circulante desde março de 1997 e que exerce uma das funções mais técnicas da instituição, também não esconde que ficou surpreso com pesquisa realizada pela Giovanni, FCB dando conta de que o brasileiro não gosta de usar moedas e só dá valor às de maior valor, ou seja, as de R$ 1,00. Essa pesquisa revela, por exemplo, que 60% dos homens não gostam de usar moedas, porcentual que cai para 50% no caso das mulheres.

A principal reclamação de homens (58%) e de mulheres (60%) é a dificuldade de transportá-las. Tanto que 44% das mulheres alegam ter dificuldades de encontrá-las na bolsa e 24% dizem que são fáceis de perder. As que mais se perdem ou ficam num canto qualquer da casa são as de R$ 0,01 e R$ 0,05. Pior para o BC, pois cada moedinha de R$ 0,01 custa aos cofres públicos R$ 0,06 – seis vezes o seu valor de face. As de R$ 0,05 custam R$ 0,07, e a relação só inverte a partir das moedinhas de R$ 0,10, que custam ao BC R$ 0,82 cada uma.

O comerciante Geraldo Kuchkarian, que tem uma loja de R$ 1,99 na rua Barão de Itapetininga, próximo à Praça da República, luta para conseguir no banco, todos os dias, pelo menos R$ 10 em moedinhas de R$ 0,01. “Não gosto de deixar o cliente sem troco. Se ele compra algum produto de R$ 1,99 é porque quer pagar este valor e não R$ 2,00.” Ele diz ter dificuldades para obter moedinhas de um centavo, mas afirma que, “se arrendondar o preço, descaracterizaria o nome da loja.” É, sem dúvida, um caso raro.

A estagiária da Telefônica Fabíola Bram, de 28 anos, faz questão do troco. “Eu sempre carrego meu moedeiro. Se não tenho trocado, as pessoas arredondam para cima. Como isso me irrita, muitas vezes pago com cartão de débito.”

No açougue
O gerente do açougue Frigorífico Cantareira, na região central da capital, Edjango Duarte dos Santos, não se aflige com a falta de moedas de R$ 0,01 e R$ 0,05, embora exibisse, na última sexta-feira, preços como um quilo de orelha de porco salgada a R$ 1,99, bacon extra a R$ 4,98 e contrafilé a R$ 7,98. “Como faltam moedas, a regra é aumentar um pouquinho no peso, o que deixa o freguês contente”, diz, convencido de que essa transformação de moedas de R$ 0,01 em pequenos nacos de carne é a melhor forma de driblar a falta de moedas. Não seria mais fácil arredondar os valores nas placas? “Mas aí a gente não atrairia o consumidor”, responde, reforçando essa estratégia de marketing que deixa o consumidor com a impressão de estar pagando menos. E não tem aqueles que reclamam? “Sempre tem, mas sempre se consegue dar um jeito porque alguns pagam as compras em moedas.”

A ambulante Josicleuma de Deus Silva, 23 anos, casada, paga o que compra neste açougue com moedas. Ela vende café, chocolate e balas na região da Cantareira, e vai juntando os R$ 0,30 de um cafezinho, até que faz suas compras na própria região. “Eu sempre tenho muitas moedas, mas volto para casa com poucas. Só separo as de R$ 0,10 para ter troco, senão perc