Brasil amplia segurança na fronteira com Paraguai e Lugo reúne ‘gabinete paralelo’

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Publicado segunda-feira, 25 de junho de 2012 as 11:56, por: cdb
Lugo
Lugo reuniu o gabinete paralelo na sede de um partido político em Assunção

O governo brasileiro segue de perto os desdobramentos políticos no Paraguai e, embora tenha guarnecido com mais rigor a produção de energia na usina binacional de Itaipu, somente tomará alguma iniciativa contra o golpe de Estado naquele país na qual Argentina e Uruguai estiverem juntos. A exemplo da medida adotada na véspera, de suspender o Paraguai do Mercosul (bloco econômico que reúne o Brasil, a Argentina, o Uruguai, Paraguai e mais seis parceiros), o Brasil indica que não pretende reconhecer um Estado que desrespeita a ordem democrática. Diplomatas que acompanham os fatos analisam que deverá ser aberta uma via de negociação alternativa para as questões envolvendo as áreas de fronteira do Paraguai com o Brasil, a Argentina e o Uruguai. Suspenso do Mercosul, o Paraguai precisará manter o diálogo com os vizinhos e uma das possibilidades será uma via alternativa a ser estabelecida.

Às vésperas da votação do golpe que destituiu o ex-presidente Fernando Lugo, o governo do Brasil alertou para a necessidade de se conceder espaço e tempo à defesa. Para as autoridades brasileiras, há suspeitas sobre a forma como o processo foi conduzido, principalmente pelo curto espaço de tempo. Em menos de 30 horas, houve a aprovação do impeachment. Os diplomatas avaliam ainda que a suspensão do Paraguai valerá apenas durante o período em que o novo presidente, Federico Franco, estiver no poder, pois haverá somente a reunião de cúpula nos dias 28 e 29, além de mais uma no fim do ano. Em seguida, em abril, serão realizadas eleições presidenciais no Paraguai.

No sábado à tarde, a presidenta Dilma Rousseff convocou uma reunião para discutir o assunto. Foram chamados os ministros Antonio Patriota (Relações Exteriores), Celso Amorim (Defesa) e Edison Lobão (Minas e Energia), além do assessor especial para Assuntos Interncionais, Marco Aurélio Garcia. Ao final, foi emitida uma nota condenando o processo de impeachment de Lugo no Paraguai. Porém, o governo brasileiro esclarece que não pretende impor sanções nem restrições ao país vizinho. Nas ruas de Assunção, os paraguaios vivem uma aparente normalidade, mas percebe-se que o movimento, nas ruas, está menor, principalmente em Ciudad del Leste, na fronteira com o Brasil.

A área no entorno da hidrelétrica binacional de Itaipu, a maior da América Latina, foi reforçada e os procedimentos internos de operação da usina também tiveram os níveis de segurança ampliados, devido ao golpe de Estado no país vizinho, sócio no empreendimento. Na nota emitida após a reunião de Dilma, embora o ministro Lobão estivesse presente, o assunto foi omitido por se tratar de matéria relativa à segurança nacional. Fontes de Itaipu, ouvidas pelo Correio do Brasil em condição de anonimato, dizem que o ambiente no local é tranquilo, apesar de certa apreensão devido aos últimos acontecimentos em Assunção. Os padrões de acesso à usina não foram alterados desde a edição do golpe, mas as áreas sensíveis para a geração de energia estão mais bem guardadas, segundo a fonte.

– Estamos todos de ‘orelhas em pé’ – afirmou um graduado operador do sistema de distribuição de energia no Brasil.

Gabinete paralelo

Após deixar a Presidência de seu país, expulso pela orquestração parlamentar que se traduziu no golpe de Estado, o presidente deposto Fernando Lugo, ainda em solo paraguaio, chamou deputados e ex-colaboradores, qualificados por ele como um “grupo de observadores para velar para que se mantenha o fio constitucional” para uma reunião nesta manhã. Lugo assegurou que somente lhe restava manter uma comunicação clara com a comunidade nacional e internacional (capaz) de potencializar uma resistência pacífica” ao que chamou de “sexta-feira negra”.

Durante a reunião na sede do partido País Solidário, na capital paraguaia, desde as primeiras horas da manhã desta segunda-feira, Lugo instituiu um gabinete ministerial paralelo para planejar as ações a serem tomadas nos próximos dias. O gabinete presidido por Lugo, chamado de “Recuperação Democrática”, conta com a participação dos ex-ministros da Saúde Pública e Bem estar Social, Esperanza Martínez; das Relações Exteriores, Jorge Lara Castro; do Gabinete Civil, Miguel Ángel López Perito; e da Informação e Comunicação, Augusto Dos Santos, entre otros.

– Fomos submetidos ao juízo político e não vamos dar o gosto aos promotores da morte, que provocaram a morte de camponeses e policiais – disse Lugo, lembrando do clima de tensão que se instaurou na sexta-feira, em frente ao Congresso, em Assunção.

O ex-ministro da Moradia, Gerardo Rolón, disse ao jornal argentino La Nación que aquela iniciativa “é uma demonstração de que Lugo segue sendo o presidente”.

Após o sorriso sem graça na foto de sua despedida no palácio presidencial, Lugo tem mudado o tom do discurso. A alteração no tom de voz do ex-bispo ocorre em linha com o apoio internacional ao retorno da estabilidade democrática no país e o consequente cerco a Federico Franco, o presidente golpista. O novo governo de Assunção foi reconhecido apenas por Espanha, Alemanha, Canadá, Vaticano e Estados Unidos.

Primeiras reuniões

O presidente de facto do país, Federico Franco, reuniu-se no Palácio do Governo, nesta segunda-feira, com os diretores das principais companhias petrolíferas presentes no Paraguai, após o anúncio da Venezuela de um corte no fornecimento de combustível. Pouco depois, estava previsto o juramento e posse dos novos ministros do governo interino.

Movimentos sociais também começaram agitar as primeiras manifestações contra a queda de Lugo, enquanto o novo governo dá os primeiros passos para reestabelecer o Executivo e refazer “as pontes” com os vizinhos.

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