BNDES pode ser o comprador das ações da Eletropaulo

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado domingo, 9 de março de 2003 as 12:16, por: cdb

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) pode vir a ser o comprador das ações da Eletropaulo que vão a leilão para pagar a dívida da AES Transgás com o próprio BNDES. A única hipótese das ações não serem leiloadas é a AES, dona da Eletropaulo, apresentar uma proposta para a solução global do seu débito de US$ 1,131 bilhão com o banco estatal.

Segundo a Folha apurou, técnicos do BNDES estão convencidos de que nada impede o banco de participar do leilão como comprador. Eles estão também certos de que essa participação será um grande negócio, qualquer que seja o resultado da operação.

A AES Transgás deve ao BNDES o equivalente a US$ 604 milhões (R$ 2,114 bilhões) de um empréstimo feito em janeiro de 2000, de aproximadamente US$ 1 bilhão, para a compra de 64% das ações preferenciais (sem direito a voto) da Eletropaulo. O banco já recebeu cerca de US$ 600 milhões.

No dia 28 de fevereiro a AES Transgás deixou de pagar uma parcela, a penúltima do financiamento, no valor de US$ 330 milhões (R$ 1,15 bilhão). O banco não aceitou uma proposta de prorrogar o vencimento para 15 de abril.

Com isso, segundo a interpretação dos técnicos do BNDES, o caminho natural é o leilão das ações para o pagamento do débito remanescente. O leilão deverá ser feito pela CBLC (Câmara Brasileira de Liquidação e Custódia), órgão da Bovespa responsável pela liquidação (pagamento) das operações em Bolsa no país.

As ações, que foram vendidas a termo (para entrega no final do pagamento), estão sob custódia da CBLC. Ela espera um sinal do BNDES, titular das garantias representadas pelas ações, para marcar o leilão e fixar as regras.

O problema, para o BNDES, é que as ações estão valendo hoje em torno de US$ 100 milhões, menos que a décima parte do valor da época em que foram vendidas. Caso receba o resultado da venda ao preço atual, o BNDES perderá cerca de US$ 500 milhões (R$ 1,75 bilhão).

Por isso, os técnicos do banco pensam que a melhor solução será entrar no leilão como comprador. Se o BNDES comprar as ações pelos US$ 100 milhões (R$ 350 milhões) que estão valendo, receberá de volta esse dinheiro, já que o leilão será feito para pagar a dívida da AES Transgás com o próprio banco, e deixa de receber integralmente os US$ 604 milhões do seu crédito remanescente.

Em compensação, o banco ficará com as ações em carteira. O BNDES poderá esperar que essas ações voltem a se valorizar para vendê-las e recuperar integralmente o prejuízo, ou até mesmo ganhar mais dinheiro.

E se a participação do banco no leilão despertar o interesse do mercado pelas ações e elas tiverem supervalorização, o banco deixará que o mercado compre os papéis e receberá o valor dessa venda, conseguindo assim reduzir seu prejuízo em relação aos US$ 100 milhões que receberia pela venda a preço de mercado.

Ações ordinárias

Antes de se definir pela marcação do leilão, o BNDES está aguardando uma proposta da AES que inclua solução tanto para a dívida referente às ações preferenciais quanto para o débito de US$ 527 milhões (R$ 1,84 bilhão) remanescente do empréstimo de US$ 888,6 milhões feito em abril de 1998 para a compra do controle (ações ordinárias) da Eletropaulo. Essa dívida é da AES Elpa.

O BNDES quer que nessa proposta a empresa norte-americana inclua, além do controle da própria Eletropaulo, a AES Tietê, geradora de energia, também comprada em leilão de privatização, que é considerada hoje o melhor ativo do grupo AES no Brasil. O grupo já esclareceu que não pretende incluir a Tietê nas negociações.

Com isso, a solução para a dívida da AES Elpa deverá ser a execução judicial para o recebimento pelo banco das ações compradas pela AES no leilão de privatização. Elas representam a garantia principal do empréstimo. Esse caminho judicial é moroso e o BNDES preferia não percorrê-lo, mas irá, caso não tenha outra saída