Benedita da Silva é vaiada em Brasília

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Publicado segunda-feira, 20 de outubro de 2003 as 11:48, por: cdb

Na véspera do anúncio da unificação dos programas sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve de enfrentar no último domingo um constrangimento público provocado pela presença da ministra da Promoção e Assistência Social, Benedita da Silva, na platéia de um show do cantor Paulinho da Viola, em Brasília.

Benedita chegou depois de Lula, que sentava na primeira fila do espetáculo ao ar livre, e cumprimentou o presidente. Quando a ministra ocupou seu lugar, duas fileiras atrás, vieram gritos da platéia: “Devolve o dinheiro! Devolve o dinheiro!”

Era uma referência aos recursos públicos gastos por Benedita no final de setembro para ir a Buenos Aires e participar de um encontro evangélico. O episódio desgastou o governo, já que a ministra fora autorizada a viajar por um motivo considerado meramente pessoal, embora Benedita tenha alegado que, além do evento religioso, sua agenda na capital argentina incluíra encontros de trabalho. A intensa pressão, tanto do governo quanto da oposição, levou a ministra a anunciar na última sexta-feira que depositaria o dinheiro em juízo.

O show já estava começando quando Benedita chegou acompanhada do marido, o ator Antônio Pitanga. Ela trocou dois beijos com Lula e recebeu um cumprimento mais caloroso da primeira-dama, Marisa Letícia, que a abraçou. Também assistiam à apresentação os ministros Miro Teixeira (Comunicações), Cristovam Buarque (Educação), Agnelo Queiroz (Esportes) e Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência).

A resistência de Benedita em devolver o dinheiro já vinha deixando integrantes do governo preocupados com a possibilidade de o caso tirar o brilho da cerimônia de lançamento da unificação dos programas sociais, marcada esta segunda-feira no Palácio do Planalto. Apesar do anúncio de que os recursos serão depositados, assessores do Palácio ainda temem constrangimentos na cerimônia, que reunirá governadores e prefeitos.

Há ainda uma enorme expectativa a respeito do que o presidente dirá em seu discurso. Alguns auxiliares esperam que ele manifeste seu desagrado com Benedita, mas outros aguardam palavras de apoio à ministra. No último sábado, à saída de um encontro com Lula no Palácio da Alvorada, o chefe do gabinete presidencial, Gilberto Carvalho, declarou que o governo considerava o episódio encerrado com a decisão da ministra de depositar o dinheiro.

A interpretação corrente no Planalto e no PT é de que Benedita ganhou apenas uma sobrevida para se segurar no posto até a reforma ministerial prevista para a virada do ano. Até porque a oposição promete manter a pressão. “Considerar o caso encerrado é o carimbo de ‘eu convivo com a impunidade’ na testa do PT”, disse hoje o líder do PFL no Senado, José Agripino (RN). “O depósito em juízo é a porta aberta para a atuação do Ministério Público.” O PFL vai avaliar amanhã, junto com o PSDB, a iniciativa de apurar o caso na Comissão de Fiscalização e Controle do Senado.

A unificação dos programas sociais é considerada estratégica para que o governo melhore seu desempenho numa área em que vem obtendo resultados insatisfatórios. Seu lançamento foi cuidadosamente estudado, chegou a ser marcado para setembro, mas acabou adiado, para evitar que o projeto enfrentasse dificuldades semelhantes às que atingiram o Fome Zero. Mais tarde, o próprio Lula antecipou o anúncio, previsto então para o dia 27, para que não coincidisse com a data seu aniversário e o evento não fosse contaminado por homenagens de caráter personalista.