Belo Horizonte recebe maior mostra do cineasta Buñuel no Brasil

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Publicado sexta-feira, 23 de março de 2012 as 14:46, por: cdb

A capital mineira oferece até o dia 22 de abril uma oportunidade inédita no Brasil. Os 33 filmes existentes do cineasta espanhol Luiz Buñuel serão exibidos no Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, Centro), e podem ser assistidos gratuitamente. O cineasta dirigiu 34 filmes, mas a cópia da obra “Quién me quierami”, dirigida em parceria com José Luis Sáenz de Heredia, está perdida. A mostra “Luís Buñuel, O Fantasma da Liberdade”, realizada pela Fundação Clóvis Salgado em parceria com a Embaixada da França e com o Instituto Cervantes, exibirá a maior parte dos filmes em 35 milímetros. Além da exibição de toda a cinematografia, a programação inclui, também de forma gratuita, palestras, debate, lançamento de um catálogo e um curso sobre a obra do cineasta.

Para a sessão de abertura, realizada na sexta-feira, dia 23, a obra escolhida foi “Um Cão Andaluz”, apresentada com a participação do Grupo Roble, formado por Matheus Rodrigues (contrabaixo), Lucas Viotti (acordeon), Mauro Dell’ Isola (violão) e Marcelo Corrêa (piano), que executaram ao vivo a trilha sonora do filme. Primeiro filme da carreira do cineasta, o curta metragem foi produzido em parceria com Salvador Dalí e é um marco do Surrealismo, assim como “A Idade do Ouro”, também feito em parceria com Dalí.

Após essa forte presença do surrealismo em sua primeira fase francesa, Luis Buñuel concentra-se em uma produção um pouco mais comercial (fase mexicana), quando surgem filmes que se aproximam do realismo (“Os Esquecidos”, “Susana – mulher diabólica”, “O bruto” e “O alucinado”). Em sua segunda fase francesa, no final dos anos 1960, o cineasta retorna com força ao surrealismo, o que é facilmente percebido em suas últimas produções (“O Fantasma da Liberdade”, “Esse Obscuro Objeto do Desejo”, “O Discreto Charme da Burguesia” e “O Estranho Caminho de São Tiago”).

Para Rafael Ciccarini, gerente do Departamento de Cinema da Fundação Clóvis Salgado, a mostra confirma o processo de valorização do cinema que vem sendo trabalhado pela Fundação Clóvis Salgado, pensando em políticas públicas que promovam o acesso das pessoas a uma programação variada e de qualidade. “A mostra de Luis Buñuel, com a exibição de todos seus filmes, equipara-se às maiores mostras sobre a obra de importantes cineastas feitas pelo Brasil”, disse Rafael.

Em abril, junto à exibição dos filmes, serão realizadas quatro palestras, um debate, o lançamento de um catálogo e um curso sobre as características surrealistas e os aspectos poéticos da obra de Luis Buñuel, ministrado pelo professor-doutor especialista na obra do cineasta, Eduardo Peñuela Cañizal. Gerente do Departamento de Rafael Ciccarini destacou as características comuns à obra de Buñuel como um todo. “Entre os aspectos abordados, predominam temas ligados à crítica à burguesia, à igreja e às instituições sociais, todas feitas de uma forma inteligente, não como um mero panfleto político”, explicou.

O cineasta

Considerado o principal expoente do surrealismo no cinema, Luís Buñuel (Calanda, Espanha, 1900 – Cidade do México, 1983) realizou trabalhos em parceria com Salvador Dalí e juntos se tornaram marcos absolutos do movimento. Com uma vasta cinematografia, o cineasta espanhol possui relações, diálogos e influências marcantes de outras correntes artísticas, inclusive do próprio realismo. A obra de Luis Buñuel traz consigo uma constante inquietação em relação às doutrinas, às crenças e à moral humana, chamando a atenção para as prisões que as convenções sociais podem gerar. Além de intrigantes pelos temas que aborda, os filmes de Buñuel são singulares em sua forma, ou seja, na maneira em que estes temas são articulados em imagem e som.

Confira as outras atividades

• Curso – Realizado de 3 a 5 de abril, das 14h às 16h30, no Cine Humberto Mauro, o curso “O Cinema Político de Luis Buñuel” será ministrado pelo professor Eduardo Peñuela Cãnizal (USP/Unip-SP) e dividido em quatro tópicos (As rupturas poéticas e sua transcendência, As metáforas surrealistas de Buñuel, Os simulacros oníricos e o desejo e As peripécias do relato na poesia da narração buñuelesca), que abordarão questões como a construção da metáfora visual nos filmes surrealistas de Buñuel, a representação cinematográfica do sonho e as peripécias narrativas. As inscrições podem ser feitas na Secretaria da Gerência de Cinema da Fundação Clóvis Salgado, no piso inferior do Palácio das Artes, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h.

• Palestras – Ao longo do próximo mês, serão realizadas quatro palestras abordando especificidades da obra do cineasta. As atividades serão realizadas no Cine Humberto Mauro e têm entrada gratuita, com retirada de senhas na bilheteria meia hora antes do início. Confira abaixo a programação:
– Quinta, dia 5, às 17h – “Pérez Galdós e o cinema de Buñuel”, com o palestrante Pedro Navarro
– Sexta, dia 6, às 17h – “Buñuel: uma visão crítica do sistema social, com o palestrante Pablo Pita da Veiga
– Quinta, dia 12, às 17h – “Buñuel, Dalí e Lorca na Residência de Estudantes”, com o palestrante Ignacio Martínez-Castignani
– Quinta, dia 19, às 17h – “O Discreto Charme de Buñuel: uma proposta de revisitar a sua obra”, com o palestrante Eduardo Días Fonseca

• Debate – No dia 21 de abril, será realizado, das 14h às 16h30, o debate “Luis Buñuel: Século XXI”. Mediado pelo gerente do Departamento de Cinema da Fundação Clóvis Salgado, Rafael Ciccarini, o debate contará com a presença do professor César Guimarães, professor do Departamento de Comunicação da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, do professor Luiz Nazario, professor de Cinema da Escola de Belas Artes da UFMG, do professor Júlio Pessoa Nogueira, coordenador e professor do curso de Cinema do Centro Universitário UMA, e de João Dumans, curador e mestrando do curso de pós-graduação em Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. No debate, será discutido o posicionamento do legado estético e político deixado por Buñuel. A mensagem passada pela obra do cineasta, pensada na atualidade, onde as próprias noções de política, poesia, realismo, ética e estética se confundem e se reconfiguram, também estará em pauta no debate.

• Catálogo – A mostra contará com o lançamento de um catálogo, com cinco textos inéditos, além de textos de arquivo, escritos por pesquisadores do cinema, e textos clássicos, como do cineasta Glauber Rocha.