Balanço de gente diferenciada (Carta a Josés)

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Publicado domingo, 15 de maio de 2011 as 09:40, por: cdb

Por Nieh 15/05/2011 às 12:29

Sobre o Churrasco da Gente Diferenciada

A festa acabou, o povo sumiu, a noite esfriou. E agora, José? Um churrasco de classe média, em caricatura “bem humorada” de periferia: “tudo gente diferenciada”. Alguns militantes, outros entusiastas, deram as caras, vozes e bocas por ali. Estiveram também, a protestar contra o reacionarismo de uma elite tacanha, pessoas que, com muito ou pouco pudor, costumam blasfemar contra greves de servidores públicos (e “toda a corja de sindicalistas”), contra avenidas paradas por manifestantes em horários de pico, contra atos (dos mais aos menos radicalizados) dos movimentos estudantis, ou até alguns que, por malícia ou ingenuidade, prestam-se indiscriminadamente contra políticas antidiscriminatórias. Um público “novo” exposto à luta: alguns até simpáticos a um outro José.

Houve música, fotos e espetinhos na brasa. A denúncia, a mobilização, a discussão, a alegria, fizeram valer, em partes, um esforço pontual: grupos se articularam, grandes veículos anunciaram, parcela da pacata opinião pública foi sensibilizada. Talvez até seja construída ali uma estação de metrô, sem entrada de serviço, para o horror de uma elite enquistada.

Mas tudo acabou, tudo fugiu. E agora? Que boa parte dos ali presentes, José, reacenda em outros corredores as discussões sobre a precariedade dos transportes públicos, sobre as políticas de catracas e todos os seus conluios com o capital privado, sobre as várias limitações da malha urbana do metrô de São Paulo (para além do argumento PSDBista da limpeza ou da segurança), sobre a importância das dezenas de movimentos e reivindicações que continuam a ser feitas em regiões distantes da Av. Angélica, sobre a opressão diária dos motores contra pedestres e ciclistas (e a reorganização das cidades), ou sobre tantos outros descasos, e assimetrias, legitimados por anos e anos de desgovernos. E que disso se faça a luta, José, para que o churrasco tenha saciado, e continue a saciar, um pouco das fomes.

Que a festa de sábado tenha alimentado barrigas e contrapontos, revoltas e partilhas. Pimenta e fermento, na brasa, aos olhos de uma elite burra, amiga de outros Josés. Que não tenha sido só um carnaval de rua, ou flash-mob descompromissado em tempos de Facebook. E que então sejamos festa, revolta e mudança, todos nós, onde estivermos, cada vez mais numerosos, na alegria e movimento da militância individual ou institucionalizada; na luta diária, grande ou pequena, da gente diferenciada.