Autonomia política e econômica latino-americana

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Publicado quinta-feira, 28 de junho de 2012 as 08:09, por: cdb

(8’22” / 3.89 Mb) – O peso político e econômico da Venezuela no cenário internacional é fator a ser analisado com a entrada de Hugo Chávez na presidência. Principalmente pelo fato da nação venezuelana ter dado a largada em um processo de transformações políticas na América Latina, com eleições de governos progressistas em outros países.

Entre eles, considera-se o Brasil com Luiz Inácio Lula da Silva – seguido por Dilma Rousseff – e a Argentina com Néstor e Cristina Kirchner, a partir de 2003. Há também Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, os mandatos de Tabaré Vázquez e Pepe Mujica no Uruguai, Daniel Ortega na Nicarágua e Fernando Lugo no Paraguai.

O sociólogo e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Emir Sader, acredita que essas mudanças indicam uma virada de período político na América Latina. Ele afirma que a região deixou de ser uma zona de consenso neoliberal, passando a ter uma integração autônoma em relação aos Estados Unidos.

“Representou, em primeiro lugar, impedir a possibilidade de um tratado da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que era o que os Estados Unidos pretendiam impor no conjunto do continente. Em segundo lugar, a possibilidade de, alternativamente a isso, ter um projeto de integração regional, quer dizer, fortalecer o Mercosul, criar a Unasul, criar o Banco do Sul, criar o Conselho Sul-Americano de Defesa.”

Uma análise similar é compartilhada pelo especialista em relações internacionais e professor da Faculdade Cásper Líbero, Igor Fuser.

“Até então, todos os governos da região seguiam uniformemente uma linha conhecida como Consenso de Washington, com as políticas neoliberais impostas pelos Estados Unidos e por organismos internacionais. Aquelas políticas como privatizações, redução dos gastos do Estado. Prejudicando, sobretudo, setores básicos como saúde, educação, infraestrutura urbana, moradia.”

Tendo como pano de fundo o conceito de “Bolivarianismo” em seu governo, Chávez assume os ideais do libertador Simón Bolívar, um dos líderes da independência das colônias espanholas no continente. Essa ideia possui dois significados principais: um sentido interno de emancipação real do povo venezuelano; e outro sentido internacional, de forte integração latino-americana.

Segundo Igor Fuser, o governo Chávez implementa na República Bolivariana da Venezuela uma política externa coerente com sua política interna.

“A política interna da Venezuela é uma política que inverte as prioridades do Estado. Em vez de priorizar os interesses das elites, dos setores mais ricos da sociedade, privilegia o povo; os setores mais pobres, os setores mais carentes, as comunidades de bairro, os camponeses. No plano da política externa, ocorre uma inversão semelhante.”

Cenário favorável

A perda de poder dos Estados Unidos sobre a economia mundial, com a ascensão da China no sistema internacional, proporcionou um cenário favorável para os países latino-americanos. Assim, essas nações passam a não depender de um único parceiro comercial, como explica Fuser.

“Hoje as trocas comerciais com a China têm um papel muito importante para todos os outros países da América Latina. A China é um parceiro importante da Venezuela, com muitos projetos de cooperação na área do petróleo e em várias outras áreas também. A Rússia também é um país que tem ótimas relações com a Venezuela. Graças à Rússia, a Venezuela não depende mais da tecnologia militar dos Estados Unidos. Mas também países árabes e do Oriente Médio, como o Irã. O esforço da Venezuela é procurar diversificar suas relações com o mundo inteiro, em primeiro lugar com a América Latina.”

O contexto econômico de crescimento do início da última década, com elevação do preço dos recursos naturais e agrícolas para exportação, fez com que muitos países da região acumulassem recursos financeiros, que puderam ser reinvestidos em políticas sociais.

No caso da Venezuela, que tem como principal mercadoria o petróleo, o excedente econômico também possibilitou um investimento em projetos de melhoria das condições de vida em outros países. Isso é o que observa o pesquisador da Missão do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) na Venezuela, Luiz Fernando Sanná Pinto.

“Boa parte dos acordos da Alba e da Petrocaribe – que é uma estrutura importante dentro da própria Alba –, assim como o Acordo de Cooperação Energética de Caracas, vão prever que o que é economizado por parte dos países que fazem parte, em termos de importação de petróleo da Venezuela, seja usado em determinados tipos de políticas públicas. E isso acaba alterando completamente a correlação de forças dentro desses países. Por isso, que o debate, também, sobre essas novas alianças internacionais é absolutamente fundamental na política local.”

Projetos de integração

Entre os projetos de integração, está a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA), criada em 2004, a partir de um acordo entre os governos venezuelano e cubano. Atualmente, a ALBA é formada por Venezuela, Equador, Bolívia, Nicarágua, Cuba, Antígua e Barbuda, São Vicente e Granadinas, e Dominica. Sua proposta é ser uma plataforma de cooperação entre os países da América Latina e do Caribe, para além do sentido comercial, o que o distingue de acordos regionais como o Mercado Comum do Sul (Mercosul), como explica Sanná Pinto.

“A Alba é mais como um guarda-chuva de vários acordos multilaterais e bilaterais de cooperação. Dentro da concepção desses acordos de cooperação existe uma ideia integracionista. Não tem um viés comercialista, que em geral a maior parte das instituições relacionadas ou que tenham alguma relação com a ideia de integração econômica têm.”

Há também uma moeda fictícia regional chamada Sucre, implementada em 2010, que é um sistema de compensação do comércio multilateral na região. Isso gerou um impacto de crescimento no comércio intrabloco, por exemplo, as trocas comerciais entre Venezuela e Equador aumentaram mais de oito vezes, informa o pesquisador do Ipea. Ele acrescenta que há também uma busca por complementaridade econômica.

Diante do quadro de maior integração, também comercial, que inclui o Mercosul, Emir Sader aponta que os países latino-americanos foram capazes de resistir melhor aos efeitos da crise econômica internacional.

“Nós pudemos resistir melhor à crise por essa possibilidade de ter mercados regionais no processo de integração. Dependemos menos da demanda de países como os Estados Unidos e da economia europeia”.

Além da Alba e do Mercosul, há ainda a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) e a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC), como importantes iniciativas de integração regional.

Por Vivian Fernandes,

Junho de 2012.

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Acesse todas as reportagens em texto e áudio da série especial “Venezuela, nos passos do desenvolvimento”, da Radioagência NP.

Programa 1: Políticas sociais e redução da pobreza

Programa 2: Políticas econômicas e as nacionalizações

Programa 3: Petróleo e soberania nacional

Programa 4: Conflitos com a mídia e pluralidade da informação

Programa 5: Sistema democrático e participação popular

Programa 6: Relação com o Brasil e integração regional

Programa 7: Autonomia política e econômica latino-americana