Ata revela cautela do BC com cenário externo

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Publicado quinta-feira, 27 de dezembro de 2001 as 19:40, por: cdb

O Banco Central procurou temperar o otimismo predominante no mercado com cautela ao explicitar os motivos que levaram o Comitê de Política Monetária – Copom – a manter os juros estáveis em 19% ao ano, em sua última reunião, ocorrida na semana passada. “As incertezas quanto à recuperação da economia internacional, à melhora nos índices de inflação, devido ao menor repasse da depreciação do câmbio, e à evolução da crise argentina recomendam que se aguarde por uma confirmação do quadro mais favorável que ora começa se configurar”, diz o texto da ata da última reunião do Copom, divulgado hoje pelo BC.

A cautela é realçada na ata pela avaliação de que a retomada do crescimento dos Estados Unidos e de outros países industrializados só deve mesmo ocorrer no segundo semestre de 2002. “O cenário mundial ainda é incerto”, diz o documento. Os problemas na Argentina comprometem as perspectivas positivas para o futuro. O conjunto desses fatores poderá se refletir, segundo o BC, em “expectativas desfavoráveis” sobre a taxa de câmbio e inflação em 2002.

O BC considera que é ainda incerta a tendência futura de redução do repasse da valorização do dólar diante do real para os índices de inflação nos próximos meses, diante de um cenário de retomada de crescimento da economia. “A inflação de novembro medida pelo IPCA manteve-se em patamar elevado, assim como seu núcleo. O repasse cambial e a descompressão das margens de lucro parecem ser os responsáveis pelos elevados aumentos dos índices de preços ao consumidor”, alerta a ata do Copom.

Apesar da cautela, o BC reforça na ata a percepção generalizada no mercado de que o cenário econômico apresentou grande melhora em resposta ao desempenho das contas externas e ao descolamento do Brasil da crise argentina. São fatores que possibilitaram a redução do prêmio de risco e a valorização do real e vêm permitindo colocar novamente a inflação numa trajetória segura de queda.

Embora, em 2001, a inflação medida pelo IPCA vá ficar bem acima do teto da meta fixada pelo governo – o presidente do BC, Armínio Fraga já adiantou na semana passada que a previsão é de 7,4% – para 2002 o BC projeta uma taxa próxima ao centro da meta de 3,5% (3,7%, conforme Fraga).

Em 2003, a folga deve ser maior, com uma inflação projetada pelo BC “significativamente inferior” à meta central de 3,25%. O alívio nas estimativas para a inflação foi permitido com a revisão para baixo da previsão de reajuste das tarifas de energia elétrica, a queda dos preços dos combustíveis e o menor repasse da depreciação do câmbio para a inflação.

Ao longo de 2002, o BC previu uma queda média de 15,2% dos preços para o consumidor da gasolina e do óleo diesel. No primeiro trimestre do ano, a expectativa é uma queda de 16,4% nos preços para o consumidor da gasolina e do óleo diesel. Na direção oposta, os preços do gás de cozinha terão aumento por conta da eliminação dos subsídios para o GLP. Segundo o BC, esse aumento do gás será substancial, mas compensado pela redução dos preços da gasolina e do óleo diesel.

O BC reviu para 19% a previsão de reajuste das tarifas de energia elétrica em 2002. Na ata anterior, o BC previa um reajuste de 30% das tarifa de energia no próximo ano. Também foi revista a projeção de aumento do conjunto ampliado de preços administrados em 2002, que caiu para 5,2%, ante 5,8% na ata do mês passado. A ata trouxe uma pequena redução das previsões sobre o impacto dos reajustes dos preços administrados sobre o IPCA de 2002. As estimativas foram reduzidas de 1,8 ponto porcentual para 1,6 ponto porcentual.

A ata destaca que as expectativas de mercado para a inflação, coletadas pela pesquisa do BC, vêm se reduzindo nas últimas semanas. Para o BC, esse movimento de queda das expectativas do mercado pode, em parte, estar associado à trajetória de apreciação da taxa de câmbio. Segundo o BC, caso essa tendência persista, as expectativas para a inflação podem apresentar reduções adicionais, já que diminui o risco d