As tentações do crime

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Publicado quinta-feira, 6 de abril de 2006 as 15:47, por: cdb

Diz a tradição que no palco o crime é mais interessante do que a virtude. Isso inclui o palco da guerra entre cordiais que define o estilo da política institucional no Brasil. Bandos se enfrentam quotidianamente em busca da aprovação ou desaprovação de um relatório de CPI, do ataque ou da defesa da ocasião, da cassação ou absolvição do momento.

Desde a estupidez do crime cometido pela violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo, as oposições ganharam novo alento, pois estavam bastante desanimadas. Receberam de mão beijada um herói humilde assediado por um crime cometido por poderosos. Os próceres dessas oposições parecem tigres de dente de sabre cortejando o cordeiro da ocasião; de qualquer modo o acontecimento, além de propiciar-lhes jogar às feras o ministro da Fazenda que antes adulavam, fez renascer a proposta de impedir o presidente Lula.

Lançar a tese do impeachment, no momento em que estas mesmas oposições articulam os passos e alianças de seu candidato à presidência, define três roteiros possíveis para a proposta. Há aqueles que, seja por estarem convencidos da precariedade de seu candidato, seja por velho vezo golpista (uma vez que não há embasamento jurídico para a proposta), querem o impeachment já. Diversas manifestações na imprensa e fora dela foram nesta direção, inclusive na calorosa e acalorada recepção ao caseiro na OAB/São Paulo. Tais vozes se animaram com a ordem do dia do ministro do Exército saudando o golpe de 1964: ah, que bons tempos, aqueles…

Um segundo time, mais numeroso por ora, vê na tese do impeachment, posta na pauta da política nacional, um modo de encurralar e desarticular a candidatura do presidente à reeleição. Um candidato ameaçado por um processo de deposição sempre pode ser mais fraco do que um que não o seja, embora a reação contrária também seja possível. O suposto réu pode se transformar na “poderosa” vítima da perseguição, atraindo mais simpatias do que desprezo: foi exatamente o que aconteceu com o caseiro.

Antes de comentar a terceira hipótese de impeachment, a mais provável se a proposta for às vias de fato, quero examinar os riscos das duas primeiras. Na verdade o risco é um só. Nessa guerra de bandos que se enfrentam no alto da pirâmide política brasileira, sobre o trapézio da sociedade desigual (retomo aqui a imagem de Raymundo Faoro em seu famoso livro sobre o Brasil de Machado de Assis), há de parte a parte uma tendência a uma forma de “autismo” político, de perda de contato com o real que pertença ao espaço situado fora do círculo de giz do planalto onde se encontra a capital federal. Isso acometeu os petistas que foram chafurdar nas alianças espúrias e nas atividades duvidosas em torno do financiamento de campanhas ou outros financiamentos; isso acomete também as oposições, que, além de quererem se apresentar à opinião pública como se fossem desprovidas de seu passado cheio de atitudes comprometedoras, não levam em conta o povão que dizem cortejar. Por isso mesmo deram com a cara na parede quando, após meses de denúncias vazias ou cheias, constatou-se que a viabilidade eleitoral do presidente não fora comprometida.

O que fará o povão se o presidente for ameaçado? É uma boa pergunta. Uma coisa é certa: até agora não há qualquer indício que ele vá se alinhar ao lado da tigrada que se prepara para retomar de assalto o Palácio do Planalto.

A terceira hipótese, mais manhosa, é a de jogar agora a semente do impeachment para colher seu fruto depois, caso Lula venha de fato a se reeleger. Se houver a campanha podre e moralista que se espera haver, de todos os lados, e se a diferença, no caso de uma vitória de Lula, não for acachapante, o caminho estará aberto para se tentar o impeachment ao começar o segundo mandato.

Estes roteiros que estou traçando desenham a tese de que a proposta de impeachment virá de qualquer jeito, com Alckmin levantando vôo ou não. Assim: melhor fora que Lula não se candidatasse; ao se candidatar,